Quando o Erenilson me ligou de Nova Soure dizendo que viria lançar o seu Livro de poesia, Transfusão – Demônios e Metáforas, não me vieram rimas e trovas à cabeça. A minha veia poética registrou foi o que ele ia trazer de lá para agradar os convidados: o bode defumado na murta, feijão de corda e a maxixada sertaneja, cozidos em panelas de barro. Nham! Isso dá poema, e dos bons.
Quando ele falou do lançamento no Grande Sertão, meu paladar se animou mais ainda. Trem bom demais é a comida do meu querido Ronaldinho, em qualquer horário: do farto café da manhã à maniçoba, à galinhada e companhia! E o pudim e a ambrosia? É realmente um belo lugar para se lançar e ouvir poesias, pois corpo e espírito ficam bem alimentados.
Gosto da qualidade do trabalho do Erenilson – é um estudioso do sertão. Li o seu livro, Canudos – Alem dos Sertões, de uma sentada só, apreciadora que sou da personalidade marcante do Antonio Conselheiro. Em 15 de maio, eu já estava pra lá de ansiosa para misturar as rimas do livro com pernil do bode. Na hora do lançamento, recitei com ênfase alguns versos, mas pensando na transfusão do bode, da panela para o meu prato. Sem metáforas.
Foi uma noite muito aconchegante, com amigos queridos. A noite que o Sertão veio para o mar. O grande Gereba – sertanejo de Antas – alternou seu canto com Walmir Palma, artista soteropolitano preferido de Rosa Passos. Oleone Coelho Fontes, bodeiro por opção, trocou prosa com o jornalista Luciano Aguiar, litorâneo das letras. A bela Bianca, filha de Erenilson, recém-formada, comemorava a recepção da sua carteira da OAB com Ana, minha irmã, também advogada.
Enquanto isso, eu e Roberto Gaguinho, em animada prosa à parte, nos embaraçávamos com o bode e a maxixada sertaneja, regada pela cachaça orgânica, Natubana, e o vinho Terraforte, produzido com uvas Margot, “castas de primeira qualidade, de meter inveja ao Bordeaux” garante Erenilson, o cabra-da-peste que produz tudo artesanalmente.
Não deu para pegar lá uma receita com tanta comelança e bebelança. O jeito foi almoçar no dia seguinte na Ceasinha do Rio Vermelho, no restaurante Bem Bom, do meu querido amigo Carlos Lineu. Lineu é muito conhecido pela deliciosa feijoada que serve aos sábados pela manhã, disputada pelos boêmios vindos da noite e pelos trabalhadores madrugueiros, além de comida a quilo, muito boa. Convidamos Ronaldinho para testemunhar a raspagem da panela do bode.
Vou te contar, meu bonito: que dificuldade para conseguir a receita da maxixada. Ao dar o primeiro ingrediente – 50 maxixes verdes – o sertanejo já acrescentou, ciosamente, que o maxixe tem que ser plantado e cultivado “sem agrotóxicos e com amor, no meio da roça, com o cheiro dos bodes e das galinhas da terra”.
Aí, pára pra cortar o fumo, enrolar sem pressa no papel, e começar a pitar o seu cigarro de palha – que em Ibicaraí, minha terra, a gente chama “legume” -, enquanto a pobre escriba, caneta arriada na mesa, toma cerveja (toma, não, bebe cerveja que lá em minha terra é assim que se fala) com Ronaldo, aguardando o resto dos ingredientes. Inspirado pelo cheiro do “legume”, Erenilson consegue, finalmente, terminar a receita da maxixada sertaneja antes de eu beber a cerveja toda de Lineu. Ponha o avental, meu gostosão e vamos pra cozinha.
Maxixada sertaneja
Ingredientes:
50 maxixes verdes cortados em rodelas, sem tirar os “espinhos”;
15 bananas d’água verdes;
4 cebolas roxas médias;
Meia cabeça de alho amassado (uns seis dentes);
Uma colher (chá) de urucum ou duas de colorau;
Duas colheres (sopa) de vinagre;
Uma colher (sopa) de mel de cana ou melaço;
Três copos de leite de coco natural;
Duas colheres (sopa) de azeite de dendê;
Uma raspa de gengibre ralado; Coentro e sal a gosto.
Modo de preparar:
- Refogar todos os temperos com o azeite de dendê. Acrescentar um copo de leite de coco;
- Acrescentar os maxixes deixando em fogo médio até começar a levantar a fervura;
- Acrescentar o restante do leite de coco.
- Somente agora, descascar as bananas (para não ficarem pretas) cortar em rodelas e juntar à maxixada;
- Verificar o sal. Acrescentar um pouco de água, se necessário.
- Deixar no fogo, até adquirir consistencia;
- Servir com carneiro ou bode, assado ou cozido. De qualquer forma é muito bom, é sinistro, cara! Demais! Experimenta! Se estiver com uma gata, vais ganhar a mulher na hora. O caminho para o coração passa pelo estômago.
Postado em 01/05/2010 ás 07:24 |