Como fracassado golpe de 1991 na URSS acelerou neoliberalismo na América Latina

Postado em 21/08/2018 9:51 - Atualizado em: 21/08/2018 9:51
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© Sputnik / Vladimir Rodionov

A América Latina não ficou alheia à tensão pela qual a Rússia passou em 1991, quando um grupo de dirigentes soviéticos levou a cabo uma tentativa de golpe de Estado contra Mikhail Gorbachev. O analista argentino Alberto López Girondo explica por que as consequências do evento foram muito importantes para a região.

Ao longo de 1991, muitas repúblicas que integravam a União Soviética decidiram declarar sua independência. A integridade do Estado soviético tal como existiu durante a maior parte do século XX corria perigo. Seu líder de então, Mikhail Gorbachev, pretendia criar a União de Estados Soberanos, uma confederação de natureza diferente da URSS, que a substituísse e mantivesse unidos os países que a integravam.

Mas, nos círculos governantes, nem todos estavam de acordo com o projeto. Um grupo de dirigentes queria que a URSS continuasse tal como era antes. De 18 a 21 de agosto, o autodenominado Comitê Estatal para o Estado de Emergência tentou assumir o controle sobre o país.O golpe acabou fracassando, pois Gorbachev não chegou a ser deposto graças à mobilização popular. Mas sua intenção de reestruturar a União também não deu certo, acelerando o processo que levou ao colapso da URSS, em dezembro de 1991.

“Acho que a América Latina, nos primeiros anos do século XXI, foi o único lugar onde tentaram manter algum tipo de utopia, mas obviamente não uma revolução socialista. Os governos populares tentaram manter certa defesa dos interesses da população, certo papel do Estado, o que no momento está se revertendo”, detalhou.

Segundo o analista Alberto López Girondo, editor internacional do jornal Tiempo Argentino, aqueles dias de agosto “marcaram o fim” do país que começou a ser construído após a revolução de 1917.

“Em muitos lugares do mundo ainda há um forte debate sobre o que levou a essa situação. Mas, em concreto, ela marcou o fim da URSS, o fim do projeto de Gorbachev de enquadrar algum tipo de abertura no mesmo sistema. Para todo o mundo [marcou] o fim […] de uma utopia. Acredito que hoje estamos pagando as consequências”, disse López Girondo à Sputnik Mundo.

A tentativa de agosto de 1991 foi “uma das peças” de um efeito dominó que atingiu todo o planeta e cujas consequências chegaram à América Latina. Durante toda a década de noventa, avança o analista, com o desaparecimento do bloco soviético, “o avanço das políticas neoliberais” que aumentaram a desigualdade social encontrou menos resistência.Segundo López Girondo, no centro dos debates ideológicos “na esquerda e nos movimentos progressistas de todo o mundo” está a análise de como estas forças “começam a adotar políticas que são de direita” quando chegam ao poder.

“Isto acontece porque não existe aquele grande contrapeso, aquele grande farol que a URSS significou durante 70 anos, que dizia ao mundo que existia outra alternativa”, opina o especialista.

Para López Girondo, depois da Segunda Guerra Mundial, o capitalismo tentou se adaptar a políticas menos brutais, pois existia a URSS, tão diferente e a poucas centenas de quilômetros de países como a Alemanha. Quando a URSS se desintegrou, ressalta o analista, a selvageria voltou ao mundo”.

Isso foi visível na área militar, sublinha o interlocutor da Sputnik. A OTAN “perdeu sua razão de ser”, pois desapareceu seu adversário, o Pacto de Varsóvia, aliança dos países do Leste Europeu e da União Soviética. Mas, em vez de se dissolver, a OTAN foi avançando, incorporando países que antes eram do domínio soviético.A Europa também aproveitou a situação e, com a reunificação da Alemanha, tornou-se um dos mais fortes atores mundiais. A União Europeia, “até então um mercado comum” avançou na integração regional e criou o euro para competir com o dólar, acrescenta o analista.

“Tudo isso aconteceu quando a Europa começou a considerar que tinha ganho a batalha contra a Rússia, que sempre foi um inimigo dos países do centro do continente”, ressaltou López Girondo.

A queda de braço com a OTAN, que começou com o enfraquecimento de Moscou em 1991, ainda continua, acredita o especialista, mas agora com uma Rússia mais forte do ponto de vista diplomático, estratégico e militar. Uma prova são as tentativas da OTAN de “associar a Ucrânia”, a crise na Crimeia em 2014 e o conflito em Donbass, opina López Girondo.

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