Coronel diz à CPI que queria vender doses ao setor privado

Reprodução DW

A CPI da Pandemia colheu nesta quarta-feira (04/08) o depoimento do tenente-coronel da reserva Marcelo Blanco, ex-assessor do Ministério da Saúde envolvido nas negociações de uma oferta suspeita ao governo de 400 milhões de doses da vacina contra a covid-19 da AstraZeneca.

Blanco apresentou Luiz Paulo Dominghetti, que era representante da Davati Medical Supply, a Roberto Ferreira Dias, seu ex-superior hierárquico e então diretor de logística do Ministério da Saúde. Ele participou de um jantar em 25 de fevereiro em um shopping de Brasília com ambos, no qual Dominghetti afirma ter feito a proposta da venda da vacina e recebido de Dias um pedido de propina de 1 dólar por dose para “um grupo dentro do ministério”. Dias nega ter solicitado propina.

Blanco foi assessor do departamento de logística do Ministério da Saúde até 29 de janeiro. Em 22 de fevereiro, três dias antes do jantar no shopping de Brasília, ele abriu em seu nome uma empresa de representação comercial, a Valorem Consultoria em Gestão Empresarial.

Cristiano Carvalho, que atuava como principal representante da Davati no Brasil, disse à CPI ter ouvido de Dominghetti que a suposta propina, sob o termo “comissionamento”, seria destinada ao grupo de Blanco no Ministério da Saúde.

Os senadores da CPI convocaram Blanco para apurar o seu papel na negociação da venda suspeita de vacinas, contestada pela própria AstraZeneca, que não usa intermediários para negociar com governos.

Blanco diz que mirava mercado privado

No início do depoimento, Blanco apresentou a sua tese de defesa, de que estava em contato com Dominghetti para estruturar uma “parceria comercial” e um “modelo de negócios” para venda de vacinas ao mercado privado, e não ao governo.

Ele mostrou mensagens nas quais conversou com Dominghetti sobre o tema entre os dias 9 e 22 de fevereiro. Os senadores contestaram a versão, pelo fato de não haver na época lei que autorizasse a venda de vacinas ao setor privado. Blanco disse que estava se antecipando para o cenário de a venda a empresas ser autorizada.

Blanco confirmou ter levado Dominghetti ao restaurante para apresentá-lo a Dias, com o objetivo de obter informações sobre os trâmites comerciais necessários para a eventual venda das vacinas ao setor privado.

“O meu intuito em relação ao senhor Dominghetti se restringia ao desenvolvimento de um possível mercado de vacinas para o segmento privado, assunto que estava em discussão pela sociedade civil por meio de interesse de grandes grupos econômicos brasileiros”, disse Blanco.

Segundo ele, a conversa no shopping de Brasília não envolveu a oferta de vacinas e nem houve o pedido de propina mencionado pelo policial militar, e serviu apenas para marcar um encontro oficial com o representante do Ministério da Saúde. “Nesse encontro só tratou da agenda. Não trataram de vacina nesse encontro, não que eu lembre”, afirmou. No dia seguinte ao jantar, Dias recebeu Dominguetti no Ministério da Saúde.

Mensagens indicavam tratativas com o governo

Mensagens trocadas entre Dominghetti, Blanco e Carvalho, reveladas pelo jornal Folha de S. Paulo, indicam que eles tinham expectativa de fechar um contrato de venda de vacinas com o Ministério da Saúde. Em uma dessas mensagens, enviadas pelo policial militar de Minas Gerais, ele diz a Blanco: “Vamos depositar US$ 1 milhão agora”. O motivo não é especificado.

Segundo o jornal, as conversas indicam que os três esperavam  fechar o contrato com o governo até meados de março, ou seja, semanas depois do suposto pedido de propina por Dias.

Mensagens obtidas pelo site Poder360 mostram também que Blanco pediu que documentos sobre a possível venda de vacinas ao Ministério da Saúde fossem enviadas ao seu e-mail pessoal. Ele também pediu à Davati que alterasse o documento formal que seria enviado ao governo, modificando o destinatário da proposta do então secretário-executivo da pasta Élcio Franco para Dias.

Durante a sessão da CPI, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) disse que a versão de Blanco não era crível e que ele tinha participado de uma tentativa de “negociata” com o Ministério da Saúde.

O senador Rogério Carvalho (PT-SE) afirmou a Blanco que ele havia se envolvido em uma “grotesca tentativa de lesar o erário público” e que ele “está mentindo, e mentiu aqui durante todo o tempo”. “Vossa senhoria, um coronel do Exército brasileiro, não devia usar da prerrogativa e das relações construídas no ministério para tirar vantagens de ordem pessoal”, disse.

Proposta de trabalho em empresa alvo da CPI

Blanco também afirmou que, no final de 2019, recebeu uma proposta para trabalhar na empresa VTCLog, que tem contratos milionários com o Ministério da Saúde para cuidar da logística de distribuição de vacinas, medicamentos e insumos da pasta, e é um dos próximos alvos da CPI da Pandemia.

Segundo ele, a oferta de emprego foi feita pelo general Severo, para que ele assumisse a coordenação da operação da VTCLog no aeroporto do Galeão, no Rio, que seria aberta em alguns meses. Blanco disse que não aceitou a oferta por motivos pessoais e familiares.

Os senadores afirmam que general Severo é Roberto Severo Ramos, que foi secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência da República em 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro.

Nesta terça, a CPI aprovou a quebra de sigilo telefônico, fiscal, bancário e telemático da VTCLog e a convocação da presidente da empresa, Andrea Siqueira Vale. Os senadores querem apurar se há corrupção ligada aos contratos do governo com a companhia.

Fonte: Deutsche Welle (DW)