COVID-19: frequência da variante de Manaus cresce mais que 10 vezes em Portugal em 1 mês; entenda

© AFP 2021 / Patrícia de Melo Moreira

A frequência da variante de SARS-CoV-2 oriunda de Manaus cresceu mais do que 10 vezes em Portugal durante abril. Parte do período coincide com a reabertura dos voos essenciais com o Brasil, no dia 16 do último mês. Médicos ouvidos pela Sputnik Brasil também levantam outras hipóteses para o crescimento.

De acordo com o mais recente “Relatório de situação sobre diversidade genética do novo coronavírus SARS-CoV-2 em Portugal”, divulgado pelo Instituto Nacional de Saúde (INSA), a estirpe brasileira P.1 já está presente em cerca de 14% de 278 concelhos (municípios) portugueses.

“A frequência relativa da variante P.1 (501Y.V3, associada ao Brasil, Manaus) é agora de 4,3%, o que evidencia um aumento considerável em relação à amostragem de março (0,4%), indicando a análise filogeográfica que esta variante foi introduzida várias vezes de forma independente em Portugal, tendo sido já detectada em 15 distritos e 40 concelhos”, lê-se em um trecho.

A variante britânica continua predominante em Portugal, com uma frequência relativa de 91,2% na amostragem de abril, ainda em uma trajetória ascendente, uma vez que representava 82,9% no levantamento anterior. Já a estirpe sul-africana teve sua frequência relativa reduzida de 2,5% (março) para 1,3% (abril), sugerindo que a sua transmissão na comunidade tem sido limitada, segundo o relatório do INSA.

Também foram identificados os primeiros sete casos da variante indiana, seis deles na amostragem nacional de abril, abrangendo cinco municípios. Conforme o relatório, esta variante é portadora de várias mutações na proteína Spike potencialmente mediadoras de maior capacidade de transmissão e/ou evasão ao sistema imunitário.

Até a última semana, o INSA analisou 7.325 sequências do genoma do novo coronavírus, obtidas de amostras colhidas em mais de 100 laboratórios, hospitais e instituições, representando 278 municípios de Portugal. Desde o relatório anterior, de 2 de abril, foram analisadas mais 1.569 sequências.

O epidemiologista Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública de Portugal, vê uma relação direta entre a liberação de voos entre Portugal e Brasil, no dia 16 de abril, e o aumento da frequência da estirpe de Manaus em território português.

“Os 25 voos semanais entre Portugal e o Brasil têm um enorme potencial para importação de casos”, afirma Mexia à Sputnik Brasil.

Falha na fiscalização da quarentena

Questionado se a fiscalização poderia estar falhando já que é exigido dos passageiros que apresentem teste PCR negativo realizado até 72 horas antes dos voos, ele levanta algumas hipóteses.

“Eu ser testado hoje não invalida que amanhã não adoeça. Além disso, há sempre a possibilidade de haver problemas com a fiscalização e cumprimento da quarentena”, exemplifica.

Em tese, os passageiros dos voos originários do Brasil, África do Sul ou dos países com uma taxa de incidência de COVID-19 igual ou superior a 500 casos por 100 mil habitantes têm de cumprir, após a entrada em Portugal continental, um período de isolamento profilático de 14 dias, no domicílio ou em local indicado pelas autoridades de saúde.

No entanto, nem sempre há fiscalização. Logo após a liberação dos voos, no dia 19 de abril, a designer paulista Juliana Toledo voltou a Lisboa, onde cursa mestrado em Sociologia, mas conta que nenhuma autoridade de saúde a procurou nas duas semanas seguintes, apesar de ter preenchido formulários de monitoramento com seus dados, como comprovante de PCR negativo, nome, telefone e endereço.

“Quando cheguei, fui a primeira pessoa a sair do avião, perguntei sobre a quarentena no SEF [Serviço de Estrangeiros e Fronteiras], e falaram que eu que não poderia sair para nenhum lugar”, recorda Juliana.

Ela conta que fez amizade com três outras brasileiras que estavam no mesmo voo e que elas foram monitoradas pela Direção Geral de Saúde (DGS) e por autoridades policiais. Contudo, Juliana diz que não recebeu nenhuma visita nem sequer telefonema como forma de acompanhamento.

“No caso das três, o Centro de Saúde foi atrás, a polícia foi atrás, uma chegou a fazer exame de COVID-19 duas vezes, apareceram na casa e ligaram, foram realmente atrás. Comigo, foram 14 dias que ninguém me procurou. Achei bem bagunçada a maneira como estavam fazendo isso”, opina.

A designer paulista Juliana Toledo voltou a Portugal em abril, mas não teve a quarentena monitorada
© FOTO / DIVULGAÇÃO A designer paulista Juliana Toledo voltou a Portugal em abril, mas não teve a quarentena monitorada

Sputnik Brasil questionou o Ministério da Saúde como era feito o monitoramento da quarentena de passageiros que chegam em voos do Brasil e se é de forma aleatória, mas não recebeu respostas até o fechamento desta reportagem.

O médico carioca Marcelo Teixeira Matos, que trabalha na linha de frente no combate à COVID-19 em dois hospitais da Área Metropolitana de Lisboa, relata que têm sido raros os casos positivos em seus plantões. Entretanto, ele concorda que é provável que a liberação de voos entre Portugal e Brasil tenha contribuído para o crescimento da frequência da estirpe de Manaus em território lusitano.

“Há grande probabilidade de haver essa possibilidade de a variante [brasileira] ter entrado por conta da abertura [dos voos]”, cogita Matos.

Médico cita hipótese de fraudes em exames

Indagado pela Sputnik Brasil se poderia haver casos de falsos negativos nos testes de PCR, ele não descarta essa hipótese, mas indica outras possibilidades.

“Há várias. O falso negativo é uma delas. Temos que pensar na falta de fiscalização adequada, fraude dos exames (em alguns países há venda de exames negativos), além de outras formas que não sabemos ainda”, enumera.

Em março, o SEF informou que havia detectado 16 testes falsos nos aeroportos de Lisboa e Porto, com casos do Rio de Janeiro, França, Senegal e Turquia. No mesmo mês, Sputnik Brasil noticiou o caso de uma brasileira com COVID-19 que foi retirada de um avião e impedida de voltar ao Brasil.

Quem é flagrado com um teste falso fica retido no aeroporto, é obrigado a fazer exame, com notificação ao Ministério Público. As penas previstas variam de multa pelo crime de falsificação de documentos a três anos de prisão.

De acordo com Matos, há sempre dúvidas se a vacinação terá eficácia contra uma cepa nova de vírus. Ele assegura que, enquanto o vírus estiver se replicando, há riscos de variantes perigosas e totalmente novas. Segundo o especialista, a Índia parece ser “a bola da vez” em termos de surgimento de novas estirpes do vírus.

“Esse é o temor de todos. Infelizmente, em se tratando de vírus, pouca coisa ainda se mostra realmente eficaz. Uma delas é o isolamento social e a restrição de deslocamentos, além de barreiras sanitárias e isolamento de cadeias contactantes”, justifica.

O médico carioca Marcelo Matos trabalha na linha de frente contra COVID-19 em Portugal
© FOTO / DIVULGAÇÃO O médico carioca Marcelo Matos trabalha na linha de frente contra COVID-19 em Portugal

Confrontado com os dados de que a variante britânica representa 91% dos casos em Portugal, enquanto a brasileira responde por pouco mais de 4%, ele discorda de que seja apenas mercadológica a lógica de o governo português reabrir o país para os turistas britânicos a partir do dia 17, mas não para os brasileiros.

“Acho que não é só mercadológica. O brasileiro é, disparadamente, o maior número de imigrantes em terras lusitanas. Além do mais, o Reino Unido tem pouquíssimos casos positivos atualmente. Enquanto isso, o Brasil vem enfrentando uma variação ainda num patamar elevado de casos positivos”, compara.

Infectologista aponta transmissão comunitária

Já o infectologista Gerson Salvador, especialista em saúde pública formado pela Universidade de São Paulo (USP), acredita que a transmissão comunitária seja responsável pelo crescimento da presença da variante brasileira em Portugal e não a liberação de voos entre os dois países. Ele ressalta que há casos documentados desde fevereiro, representando 0,4% em março.

“É mais provável que o aumento se deva à transmissão de pessoas já infectadas em território português do que haja relação com a reabertura do espaço aéreo para o Brasil. Se já há transmissão comunitária num determinado país, o fechamento de fronteiras e restrição de fluxo de pessoas faz menos sentido. Não é possível atribuir a essa abertura do espaço aéreo o aumento de casos”, reforça.

Salvador também explica à Sputnik Brasil que leva de dois a 14 dias entre a infecção de uma pessoa e o surgimento do caso. Segundo ele, mesmo que apresente um PCR negativo, é possível que a pessoa esteja em fase de incubação e que só venha a manifestar sintomas e ter carga viral identificável dias depois.

“Então, pode ser contato com alguém que estava em fase de incubação, erro no exame ou infecção comunitária porque o vírus já está circulando naquela localidade por introdução anterior”, conclui.

Fonte: Sputnik Brasil

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