EJA: Desafios E perspectivas em tempos de ensino remoto

Foto: Reprodução
Por Maria Elizabete Molinete – UNIASSELVI

Os semestres recentes têm sido marcados por desafios e superações em todos os âmbitos de nossa vida e não seria diferente na Educação em seus diversos níveis e modalidades. Por mais que a educação a distância (EAD) seja uma realidade que está revolucionando a educação em todo o país – no ensino superior, por exemplo, com demanda cada vez mais crescente, ainda há muito o que aprender sobre esse modelo, suas especificidades e suas ferramentas e aplicações em outros níveis.

Educação a distância é a modalidade educacional na qual alunos e professores estão separados, física e temporalmente e, por isso, faz-se necessária a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação. Essa modalidade é regulada por uma legislação específica e pode ser implantada na educação básica (educação de jovens e adultos, educação profissional técnica de nível médio) e na educação superior. No momento, tem sido alternativa a não paralisação das atividades educacionais em todos os níveis devido à situação de pandemia.

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) é uma das disciplinas contempladas com a dinâmica da brinquedoteca. Conhecê-la, portanto, é de essencial importância para o desenvolvimento de atividades específicas para este público. A EJA é uma modalidade de ensino que existe no Brasil desde as primícias da educação formal, só foi legalmente inscrita na LDB – Lei nº 9.394, de 1996. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação define a EJA como uma modalidade de ensino “destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos”. Sua configuração legal refere-se predominantemente ao direito à escolarização conforme prescreve a Constituição Federal de 1988 que, em seu artigo 208, coloca como responsabilidade do Estado a educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria (BRASIL, 1988).

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

Desenvolver atividades presenciais, a distância ou remotas específicas para estudantes da EJA, é um desafio que nos permite problematizar os atores e diferentes espaços da educação. É importante também observar qual é o projeto de “formação” a que nos propomos engendrar. De acordo com Dayrell (1996), os alunos que chegam à escola são sujeitos socioculturais, com saberes, culturas, e também com projetos mais amplos ou mais restritos, mais ou menos conscientes, frutos das experiências dentro do campo de possibilidade de cada um.

A escola é parte do projeto dos alunos, uma vez que o estudo para muitos é uma escolha consciente – seja pelas necessidades impostas pelo mercado de trabalho, seja pela realização pessoal. Nesta perspectiva, há uma heterogeneidade dessa população atendida pela modalidade da Educação de Jovens e Adultos com características e especificidades distintas.

Dessa forma, para a aprendizagem se efetivar, é necessário levar em conta o aluno em sua totalidade, ou seja, um sujeito sociocultural, quando sua cultura, seus sentimentos, seu corpo, são mediadores no processo de ensino e aprendizagem. O processo educativo escolar recoloca a cada instante a reprodução do velho e a possibilidade da construção do novo. Esta abordagem permite ampliar a análise educacional, na medida em que busca apreender os processos reais, cotidianos, que ocorrem no interior da escola, ao mesmo tempo que resgata o papel ativo dos sujeitos, na vida social e escolar (DAYRELL, 1996).

É importante observar que são tempos de distanciamento e a convivência no ambiente escolar foi substituída bruscamente pelas atividades remotas – uma vez que os sistemas educacionais, de modo geral, não estavam preparados para a Educação a Distância. As recomendações do Parecer CNE 2020 para Educação de Jovens e Adultos (EJA) – definem que, enquanto perdurar a situação de emergência sanitária, as medidas recomendadas para EJA devem considerar as condições de vida dos estudantes, para haver harmonia na rotina de estudos e de trabalho. As aulas, portanto, devem ser transpostas do modo presencial para o ensino remoto, no caso da EJA. De modo que as atividades pedagógicas não presenciais (APNP) devem priorizar os meios digitais, evitando implicar em deslocamento físico ou presencial, com objetivo de garantir o distanciamento social que visa proteger a vida e a saúde de integrantes da comunidade acadêmica e de seus familiares.

As APNP ocorrerão com foco no apoio emocional e cognitivo aos estudantes e por intermédio de meios que garantam acesso e permanência para todos. Deverão ser inclusivas e considerar as vulnerabilidades dos estudantes, de modo a evitar o aprofundamento das desigualdades, a paralisia institucional e a inércia educacional diante da conjuntura da pandemia. Poderão ser mediadas ou não por meio de recursos e tecnologias digitais de informação e comunicação que possibilitem aos estudantes o acesso aos materiais de apoio e de orientação que permitam a continuidade dos estudos.

RESULTADOS E DISCUSSÃO 

Ainda que a distância, seja EAD, seja APNP (Ensino Remoto), a educação e seus processos devem ser compreendidos para além dos muros escolares e ancoram-se nas relações sociais: são as relações sociais que verdadeiramente educam, isto é, formam, produzem os indivíduos em suas realidades singulares e mais profundas. “Nenhum indivíduo nasce homem, portanto, a educação tem um sentido mais amplo, é o processo de produção de homens num determinado momento histórico […]” (DAYRELL, 1992, p. 2). 

O desafio leva os educadores a desenvolverem posturas e se apropriarem de instrumentos metodológicos que possibilitem o aprimoramento do seu olhar sobre o aluno, como “outro”, de tal forma que, conhecendo as dimensões culturais em que ele é diferente, possam resgatar a diferença como tal. Implica buscar uma compreensão totalizadora desse outro, conhecendo “não apenas o mundo cultural do aluno, mas a vida do adolescente e do adulto em seu mundo de cultura, examinando as suas experiências cotidianas de participação na vida, na cultura e no trabalho” (BRANDÃO, 1986, p. 139). Tal postura nos desafia a deslocar o eixo central da escola para o aluno. Conhecê-lo e compreendê-lo de modo a empregar as ferramentas e métodos adequados a sua formação.

CONCLUSÃO 

Independentemente da forma – presencial ou a distância e dos objetivos explícitos da escola, ocorre no seu interior uma multiplicidade de situações e conteúdos educativos, que podem e devem ser potencializadas com as ferramentas e métodos adequados. É fundamental que os profissionais da EJA reflitam mais detidamente a respeito dos conteúdos e significados da forma como a escolarização se organiza e funciona no cotidiano dos jovens e adultos. Investir na formação para estes “novos” tempos é também fundamental para que a educação funcione efetivamente.

Os alunos da EJA parecem vivenciar e valorizar uma dimensão educativa importante em espaços e tempos que geralmente a Pedagogia desconsidera: os momentos do encontro, da afetividade, do diálogo. Como deslocá-los através de atividades significativas tanto de conteúdos curriculares quanto de aprendizagens é nosso desafio mais urgente.

Acreditamos que a escola pode e deve ser um espaço de formação ampla do aluno – seja qual for o tempo e a idade apresentados – que aprofunde os processos de formação, aprimorando as dimensões e habilidades que fazem de cada um de nós seres humanos. O acesso ao conhecimento, às relações sociais, às experiências culturais diversas, que podem contribuir como suporte no desenvolvimento singular do aluno como sujeito sociocultural e no aprimoramento de sua vida social.

REFERÊNCIAS

ANZORENA, D. I. Educação de jovens e adultos / Denise Izaguirre Anzorena, Zilma Mônica Sansão Benvenutti. Indaial: Uniasselvi, 2013.

ARROYO, M. G. Formar educadores e educadoras de jovens e adultos. In. SOARES, L. (Org.). Formação de educadores da educação de jovens e adultos. Belo Horizonte: Autêntica, SECAD MEC/UNESCO, 2006.

BRANDÃO, C. R. A educação como cultura. SP: Brasiliense, 1986.

DAYRELL, J. T. A educação do aluno trabalhador: uma abordagem alternativa, Educação em Revista. B. H. (15):21-29. Jun. 1992.

MOURA, T. M. M. (Org.). Educação de jovens e adultos: currículo, trabalho docente, práticas de alfabetização e letramento. Maceió: EDUFAL, 2008.

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