Muito pouco do que acontece na internet hoje é espontâneo, diz estrategista

Postado em 19/11/2018 16:55 - Atualizado em: 19/11/2018 16:55
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Foto: Angela Weiss - 30.out.18/AFP

 

A maioria das pessoas não tem a consciência de que é constantemente manipulada por campanhas políticas e de marketing na internet —muito pouco do que ocorre hoje nas redes, seja um vídeo viral, uma hashtag ou foto, é espontâneo.

Esse é o alerta de P. W. Singer, autor do livro recém-lançado “Likewar: the Weaponization of Social Media” (Likewar: a ‘Armamentização’ das Mídias Sociais, em tradução livre; sem edição no Brasil).

Segundo Singer, as táticas desenvolvidas por empresas como a Cambridge Analytica para segmentar eleitores, manipular o fluxo de informações que chega até essas pessoas e alimentá-las com notícias falsas que potencializam seus medos foram disseminadas e hoje são o instrumento mais usado por líderes populistas, seja nos EUA com Trump, no “brexit”, nas Filipinas, na Itália ou no Brasil nas eleições.

“As vozes artificiais são determinantes para que campanhas ou ideias ganhem atenção online e se transformem em poder na vida real”, disse Singer, estrategista no centro de pesquisas New America.

Depois de ler seu livro, é impossível não ficar com a impressão de que a maioria dos movimentos e campanhas no Facebook, no Twitter e no WhatsApp não é espontânea.

Hoje em dia, pouco do que acontece na internet é natural. Talvez só aqueles vídeos fofinhos de gatos espontâneos. O objetivo do livro é ajudar as pessoas a entender que elas são sempre alvo de campanhas políticas ou de marketing online, mas também são combatentes cujos cliques e “likes” são determinantes. A maioria não tem consciência de que está sendo direcionada, segmentada, e de que é um alvo.

Hoje em dia, qual é a prevalência de bots, “sockpuppets” ou outros entes não-espontâneos nas redes sociais?

É muito maior do que as pessoas imaginam. Essas vozes artificiais são determinantes para que alguma coisa ganhe atenção online. Basta observar os resultados de eleições recentes ao redor do mundo. Cerca de um terço das vozes online falando sobre o “brexit” eram bots. Essa foi quase a mesma porcentagem de bots na eleição do México, neste ano. Não tenho números para o Brasil.

Existem os bots, que são máquinas, e os “sockpuppets”, que têm humanos por trás. A combinação dos dois é o que os torna mais poderosos, eles amplificam vozes, teorias da conspiração e notícias falsas. A combinação entre humanos, muitas vezes contratados, e bots é muito eficiente.

Além disso, é importante notar que foram dois fenômenos em ação na eleição de 2016 nos EUA e, agora, no Brasil. Nos EUA, havia milhares de contas falsas administradas por russos, injetando informações falsas. Mas essas contas também elevavam as vozes extremistas reais, amplificavam as visões mais extremas, retuitando, disseminando, aumentando o destaque.

No Brasil, houve fake news e campanha de desinformação, mas também impulsionamento de extremistas políticos. Até hoje, na maioria dos casos, isso tem sido feito pela direita —Trump, Filipinas, “brexit”, Itália, Brasil…

Mas por quê? A esquerda não sabe como usar esses instrumentos?

Eu não diria que é exatamente a direita tradicional que vem fazendo isso, são governos populistas de direita com tendências autoritárias. Eles têm conseguido mobilizar seus eleitores por meio das redes sociais de maneira muito mais eficaz, porque isso envolve ao mesmo tempo se beneficiar da liberdade de expressão e também manipular as informações, e governos autoritários conseguem fazer isso melhor.

Mas essas táticas não são exclusivas de um partido ou orientação política. Recentemente, os fãs da Lady Gaga inundaram o Twitter com resenhas e comentários negativos sobre um filme que ia estrear no mesmo final de semana em entraria em cartaz o filme estrelado pela cantora (“Nasce uma Estrela”). Criaram contas falsas fingindo ter assistido ao filme concorrente e tentaram viralizar críticas negativas. Não era a Lady Gaga, eram seus fãs fervorosos.

No caso político, muitas vezes há uma intervenção externa, como os russos na eleição americana ou no “brexit”. A tática dos russos é sempre amplificar os extremos e enfraquecer o centro, para desestabilizar o sistema.

Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, ex-vice da Cambridge Analytica e que apoia o italiano Matteo Salvini, o húngaro Viktor Orbán e Bolsonaro, destaca o papel das mídias sociais nas eleições de líderes populistas. Será que ele está de alguma maneira assessorando esses líderes em suas estratégias digitais?

Eu não sei se há envolvimento direto dele. Mas definitivamente as táticas desenvolvidas pela Cambridge foram compartilhadas e adotadas em vários locais do mundo: obter imensos bancos de dados, usá-los para fazer “microtargeting” de mensagens, manipular o fluxo de informações que chega aos eleitores, enviar notícias falsas que potencializam os medos desses eleitores. Essas táticas estão se espalhando, simplesmente porque elas funcionam. É uma guerra de likes.

Mas essas táticas conseguem realmente manipular opiniões e influenciar resultado de eleições, isso não é um exagero?

O que podemos dizer é que os grupos que usaram essas táticas acreditam que elas funcionam. As campanhas políticas ao redor do mundo observaram as táticas que foram bem-sucedidas no referendo do “brexit” e na eleição de Trump e copiaram.

No Brasil, a mídia social mais usada é o WhatsApp. O Facebook anunciou uma série de medidas para inibir a disseminação de fake news e contas falsas, mas o Whats-App foi bem menos pró-ativo e se nega a divulgar números sobre mensagens enviadas por contas banidas durante a eleição.

O Sr. acha que Facebook, Twitter e WhatsApp realmente querem combater a manipulação da opinião pública em suas plataformas, ou é mais uma ofensiva de relações públicas, para evitar um desgaste da reputação das empresas?

Facebook e Twitter estão fazendo mais do que faziam antes, mas ainda falta muito. E essas empresas são incrivelmente pouco transparentes. Nos EUA, também sofremos para conseguir que nos deem informações.

Mas há um problema maior. Todas essas são empresas privadas que visam ao lucro. Cada hora de trabalho de um funcionário gasta para combater desinformação e fake news é uma hora que não foi usada para aumentar os lucros da empresa e levar as ações a subir. Tanto que elas só passaram a abordar esses problemas quando eles começaram a prejudicar suas marcas.

É o mesmo problema com os bots. No Twitter, sabemos que uma grande porcentagem dos usuários é de contas falsas, bots, mas não é do interesse do Twitter limitá-las, porque elas fazem a plataforma parecer maior, o que ajuda a aumentar o preço de suas ações.

O que essas empresas deveriam fazer para combater a desinformação e manipulação?

Como em saúde pública, há um papel a ser desempenhado pelas empresas, outro pelo governo e outro pelos usuários. O governo precisa combater as campanhas de desinformação, estimular a alfabetização digital para que as pessoas consigam identificar quando estão sendo manipuladas.

Um bom modelo são países como a Estônia, que tem uma democracia vibrante e políticas contra desinformação. No caso das empresas, é importante investir mais em moderação de conteúdo.

Um tema crucial são os chamados “superspreaders” (superdisseminadores). São pessoas que têm uma grande capacidade para viralizar informações, seja uma teoria da conspiração ou desinformação. Mas a realidade é que um número bastante pequeno de superdisseminadores controla a narrativa online e a leva para esses extremos. Então, é possível simplesmente excluí-los.

Também deveriam exigir que os bots e contas falsas fossem identificados, houvesse um “disclaimer” —isto não é uma pessoa real usando a plataforma— para que as pessoas soubessem com quem estão lidando e de quem estão recebendo as informações. Quem não fizesse o “disclaimer” deveria ser banido.

No caso das pessoas, é importante aumentar a alfabetização digital, porque não sabem distinguir notícias e opinião, fatos e falsidades. A pessoa é um alvo, está sendo direcionada, e ela irá transmitir isso para seus amigos e família. É uma precaução semelhante a quando você está tossindo e cobre sua boca para não contaminar os outros.

No livro, você descreve como Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, aproveita-se de seus seguidores mais fanáticos no Facebook para desacreditar jornalistas e ativistas. Qual é a importância, nessa equação, de atacar a imprensa e os ativistas?

Disseminar desconfiança em tudo e todos sempre foi uma estratégia de governos autoritários, e isso foi potencializado com a internet. A mídia não apenas ajuda a colher informações e notícias mas também a distinguir o que é verdade e o que é mentira, o que é importante e o que não é. Isso é uma ameaça para todos que dependem de desinformação.

LikeWar

  1. W. Singer e Emerson T. Brooking, ed. Houghton Mifflin Harcourt,

​R$ 74,90 (ebook na Amazon), 421 págs.

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