O fracasso do FMI na Argentina e o efeito tango na América Latina

Postado em 21/08/2018 14:36 - Atualizado em: 21/08/2018 14:36
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Clarín

O Fundo Monetário Internacional (FMI) está numa encruzilhada após sua tentativa de salvar a economia macrista do fracasso. Deixar a Argentina cair seria um fiasco gigantesco, depois de entregar ao país o maior empréstimo de sua história e ver o programa naufragar em apenas três meses.

Por Rodolfo Koé Gutiérrez*

A crise fez a equipe econômica macrista se lançar de forma desesperada às contas e reservas do país, o que acabou por esgotá-las
Mas o pior é a possibilidade de colocar outras economias em risco de contágio: o Efeito Tango está fazendo os técnicos do organismo tremerem, e também muitos países denominados “emergentes”.

Um documento interno do FMI, escrito por Lusine Lusinyan, da equipe encarregada do seguimento do programa para a Argentina, revela as futuras exigências do organismo: flexibilidade do trabalho (demissões baratas e emprego desregulado), mais importações e menos impostos às empresas.

A aposta do governo de Mauricio Macri era que o acordo, por um montante recorde de 50 bilhões de dólares, permitisse reabrir as portas do financiamento externo, que Wall Street voltasse a emprestar à Argentina a partir da confiança outorgada pelo Fundo. Essa jogada não deu certo, e agora não só o mercado internacional não abre a carteira como fica cada vez mais complicado conseguir financiamento em pesos e, fundamentalmente, em dólares no mercado local.

O economista Alfredo Zaiat mostra que a posição de Christine Lagarde, manda-chuva do FMI, ficaria fragilizada se isso acontecesse – como ocorreu em 2007, quando foi condenada na França por “negligência” no manejo de fundos públicos, sendo ministra da Economia –, já que isso significaria dilapidar a lenta tarefa de reconstrução do reconhecimento internacional do Fundo, a partir da crise internacional de 2008, após os vários fracassos acumulados nos anos 90.

A menos de três meses de pactuar um acordo, com metas quantitativas muito precisas em matéria de taxa de inflação, valores mínimos de reservas internacionais líquidas e déficit fiscal, o governo Macri já se vê na impossibilidade de cumprir ao menos dois dessas três variáveis. O que preocupa o FMI é que o risco de contagio a outras economias que pode ser gerado pelo naufrágio da economia macrista. Já existe um alerta nos mercados emergentes.

A crise fez a equipe econômica macrista se lançar de forma desesperada às contas e reservas do país, o que acabou por esgotá-las. A experiência argentina ensina que não é aconselhável despertar dúvidas sobre o que os bancos fazem com o dinheiro dos clientes.

Fracasso

O “trilema” econômico de Mundell-Fleming sustenta que é impossível manejar em equilíbrio, simultaneamente, o tipo de câmbio, a taxa de juros e a política monetária, numa economia aberta e com desregulação do mercado de capitais. Nessas condições macroeconômicas, só se pode controlar duas dessas três variáveis. “A economia macrista mostra, porém, que não é capaz de controlar nenhuma das três variáveis. Quando isso acontece, se está diante de um problema de solvência da dívida”, comenta o economista Santiago Mancinelli.

Não foi possível reativar a economia baixando a taxa de juros e sem afetar o tipo de câmbio e a política monetária. Nem mesmo subindo muito a taxa de juros, o governo foi capaz de atrair capitais do exterior. Também se enfrentou o dilema de não renovação dos títulos do Banco Central (os chamados “lebacs”), com a impossibilidade de manejar a política monetária. Tampouco teve sucesso ao tentar estabelecer um tipo de câmbio de equilíbrio sem que isso afete a taxa de juros e os passivos monetários.

Agora, enfrenta o perigo da fuga massiva de capitais que disparará uma maior desvalorização do peso. “As tentativas de controlar o valor da moeda mediante o sacrifício de reservas tampouco podem conter a desvalorização impulsada pelo aumento da saída de capitais do país e o efeito disso nos preços, com o impacto no nível de atividade interno”, acrescenta Mancinelli.

A atual condução do governo está integrada por representantes de frações do capital concentrado, dos setores financeiro, agroexportador, de serviços públicos e o cartel da construção civil. Nesse contexto, economistas da ortodoxia, atuando como representantes do lobby financeiro, propõem a dolarização da economia.

No dia 28 de dezembro de 2017, o governo chegou a anunciar uma mudança nas metas de inflação, a partir do orçamento aprovado para 2018, elevando as cifras de 8 a 15%. Para este ano, estava previsto um tipo de câmbio de 21,21 pesos em média, mas hoje, e mesmo após aplicação das receitas do FMI a inflação projetada para todo o ano já tem um piso de 36% e o dólar já superou a casa dos 30 pesos – e não há quem creia que isso possa ser reversível a curto ou médio prazo. Não parece ser possível equilibrar essas cifras quando os aumentos impactam automaticamente nos preços, graças à dolarização das tarifas de serviços básicos (água, luz e gás) e do preço dos combustíveis impulsada pelo governo.

*Rodolfo Koé Gutiérrez é jornalista argentino e analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

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