O imperialismo expande-se, os padrões de vida declinam

Postado em 08/06/2018 16:47 - Atualizado em: 08/06/2018 16:47
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A recuperação imperial e os trabalhadores

por James Petras

Nero tocava o seu violino, Obama fazia cestas no basketball e Trump tuitava enquanto os seus impérios ardiam.

O que faz um império decair e o que faz impérios se expandirem tem tudo a ver com relações entre dominantes e dominados. Vários factores são decisivos. Estes incluem: (1) renda, terra e habitação; (2) a direcção dos padrões de vida; (3) a ascensão ou queda da taxa de mortalidade; (4) declínio ou ascensão de famílias.

Ao longo da história a ascensão dos impérios incorporou a sua população às tarefas do império através da distribuição de uma parte da sua pilhagem para as suas massas, fornecendo-lhes terra, rendas baixas e habitação. Donos da terra em grande escala ao enfrentarem o retorno de jovens veteranos de guerra reduziam a excessiva concentração de terra para evitarem perturbações internas.

Impérios em ascensão elevaram padrões de vida, de modo a que empregados assalariados, trabalhadores e artesãos, comerciantes e escribas encontraram emprego junto às oligarquias que expandiam o consumo conspícuo e expandiam a burocracia estatal que governava o império.

Um império próspero é causa e consequência de aumentos nas famílias e do crescimento de plebeus saudáveis e educados que prestam serviço aos dominadores.

Em contraste, impérios em declínio pilham a economia interna; concentram riqueza a expensas da força de trabalho, sem considerar a diminuição da sua saúde e esperança de vida. Em consequência, os impérios em deterioração experimentam uma taxa de mortalidade crescente; a propriedade e a terra concentra-se numa elite de rentistas que vive da riqueza não ganha através da herança, da especulação e de rendas que degradam o trabalho produtivo baseado na qualificação e no conhecimento.

Impérios em declínio são causa e consequência da deterioração de famílias compostas por trabalhadores viciados em opióides a sofrerem com o aumento das desigualdades entre dominadores e dominados.

A experiência imperial dos EUA ao longo do século passado encarna a trajetória da ascensão e queda dos impérios. O último quarto de século descreve as relações entre dominadores e dominados numa época de declínio do império.

Os padrões de vida dos americanos declinaram precipitadamente. O patronato deixou de pagar pelas pensões; reduziu ou eliminou a cobertura de saúde; reduziu os impostos corporativos, rebaixando assim a qualidade da educação pública.

Ao longo das últimas duas décadas, para a maioria das famílias os salários estagnaram ou declinaram; as despesas com educação e saúde levaram muitos à bancarrota e reduziram licenciados em universidades à servidão da dívida a longo prazo.

A acessibilidade à propriedade da casa para americanos abaixo dos 45 anos caiu dramaticamente de 24% em 2006 para 14% em 2017. Ao mesmo tempo, as rendas dispararam especialmente em grandes cidades por todo o país, na maior parte dos casos absorvendo de um terço à metade do rendimento mensal.

As elites dos negócios e seus peritos em habitação desviam a atenção para desigualdades “inter-geracionais” entre pensionistas e empregados assalariados mais jovens ao invés de reconhecerem o aumento das desigualdades tanto dos trabalhadores e pensionistas com os diretores executivos (CEOs), a qual se elevou de 1 para 100 a 400 ao longo das últimas três décadas.

As taxas de mortalidade entre a elite dos negócios e os trabalhadores ampliaram-se pois os ricos vivem mais e vidas mais saudáveis ao passo que os trabalhadores experimentaram declínio da esperança de vida, pela primeira vez na história americana! Como o rendimento das elites dos negócios com lucros, dividendos, juros aumento eles podem permitir-se custear cuidados médicos privados, prolongando a vida, ao passo que a milhões de trabalhadores são receitados opióides indutores da morte, para “reduzir o sofrimento” e precipitar a morte prematura.

Os nascimentos estão em declínio devido ao alto custo dos cuidados médicos, à ausência de infantários e de licenças maternas ou paternas pagas. Os estudos mais recentes revelaram que 2017 experimentou o menor número de bebés em 30 anos. A chamada “recuperação económica” após o colapso financeiro de 2008-9 tinha uma base de classe: as elites imobiliárias e financeiras receberam mais de dois milhões de milhões de dólares em resgates (bailouts), ao passo que mais de 3 milhões de famílias da classe trabalhadora foram despejadas por detentores de hipotecas financeiras. O resultado foi um rápido aumento nos moradores de rua, especialmente nas cidades com a maior taxa de recuperação das crises.

O número dos sem abrigo, as rendas excessivas e os salários mínimos são as causas prováveis do declínio das taxas de natalidade e do aumento das taxas de mortalidade.

O imperialismo expande-se, os padrões de vida declinam

Ao contrário do que acontecia anteriormente, nas décadas pós II Guerra Mundial em que a expansão além-mar era acompanhada por educação superior de baixo custo, hipotecas acessíveis de baixo custo com aumento do número de proprietários de casas e o patronato pagava pensões e cobertura de saúde, nas últimas duas décadas a expansão imperial está baseada em reduções forçadas de padrões de vida.

O império cresceu e os padrões de vida declinaram porque a classe capitalista se esquivou a milhões de milhões de dólares de rendimento tributável através de paraísos fiscais além-mar, preços de transferência e isenções fiscais. Além disso, capitalistas receberam subsídios estatais maciços para infraestrutura e transferências sem custo de inovações tecnológicas feitas com financiamento público.

A expansão imperial agora é baseada na relocalização além-mar de corporações manufatureiras multinacionais para reduzir os custos do trabalho, aumentando nos EUA a percentagem de trabalhadores de serviços com baixos salários.

O declínio dos padrões de vida para a maioria é um resultado da reestruturação do império, do advento do sistema fiscal regressivo, da redistribuição das transferências do Estado de bem-estar social dos gastos sociais públicos para a finança privada e subsídios e resgates imobiliários.

Conclusão

No princípio o imperialismo envolvia um contrato social explícito com o trabalho: partilha de lucros da expansão além-mar, dos impostos e rendimento do trabalho em troca do apoio político dos trabalhadores para a exploração econômica imperial além-mar, pilhagem de recursos bem como servir nas forças armadas imperiais.

O contrato social estava condicionado por um relativo equilíbrio de poder: trabalhadores sindicalizados representavam a maioria dos trabalhadores manufatureiros, do sector público e os qualificados. Mas este equilíbrio de poder nas relações de classe era baseado na capacidade do trabalho para empenhar-se na luta de classe e influenciar o estado. Por outras palavras, todo o imperialismo e a configuração da previdência foram baseados num conjunto particular de relações condicionais intrínsecas ao pacto social.

Ao longo do tempo a expansão imperial enfrentou constrangimentos além-mar, que foram desde a ascensão da oposição nacional e socialista que forçou ou encorajou corporações a relocalizarem capital no exterior. Rivais imperiais na Europa e na Ásia competiram por mercados além-mar forçando os EUA a aumentarem a produtividade, reduzirem custos do trabalho, relocalizarem-se no exterior e reduzirem lucros. Os EUA optaram por reduzir os padrões de vida internos e relocalizarem-se no exterior.

Sindicatos de trabalhadores divorciados de movimentos mais vastos da comunidade e faltos de um movimento político independente, corrompidos por dentro e comprometidos com um pacto social em extinção declinaram em número e na capacidade de formular uma nova estratégia de combate pós-pacto social. A classe capitalista ganhou controle total sobre as relações de classe e, portanto, estabeleceu unilateralmente os termos de tributação, emprego, padrões de vida e, mais importante, das despesas do Estado.

As despesas militares e económicas imperiais cresceram na proporção direta do declínio dos pagamentos dos serviços sociais. Grupos de poder rivais combateram quanto à fatia dos orçamentos capitalistas e prioridades político-militares. Imperialistas económicos competiram ou convergiram com imperialistas militares; neoliberais do mercado livre competiram por mercados além-mar com militaristas nacionais buscando ocupações territoriais, conquistas, mercados fechados e clientes submissos. A configuração rival do poder político competia por prioridades imperiais – poderosas configurações sionistas buscavam guerras regionais para Israel, enquanto multinacionais buscavam promover sua expansão político-econômica na Ásia – China, Índia e mercados do Sudeste Asiático.

Facções competidoras da elite monopolizaram orçamentos, impostos e despesas conduzindo os padrões de vida do trabalho para baixo. Classes imperialistas constituíram pactos – mas só entre eles próprios – mas a qualidade e quantidade de trabalhadores diminuiu – devido ao empobrecimento de cuidados de saúde e sistemas educacionais. Em contraste, os rebentos da elite iam para as melhores escolas e garantiam os mais altos postos no governo e na economia.

Privilégio e poder não produziram triunfos imperiais. A China preparou programas educacionais e qualificou trabalhadores para o trabalho produtivo. Em contraste, os privilegiados licenciados em universidades dos EUA queriam empregos em parasíticas posições financeiras lucrativas, não em ciência, engenharia e bem-estar social. Licenciados em academias militares juntaram-se a redes de “comandantes” que apoiavam abusadores sexuais, treinavam e promoviam oficiais que enviavam mísseis para alvejar bases militares e bombardear centros populacionais e treinavam capitães da Marinha especializados no abalroamento do seu próprio navio.

Licenciados da Ivy League [NR] asseguraram-se altas posições no governo levando os EUA a guerra infindáveis no Médio Oriente, multiplicando adversários, antagonizando aliados e gastando milhões de milhões em guerras para Israel, não no bem-estar social e em salários mais altos para os trabalhadores americanos. Oh, sim, a “economia” está a recuperar-se… só que a situação do povo está a piorar.

[NR] Ivy League: grupo de faculdades e universidades americanas de alta qualidade (Harvard, Brown, Cornell, Yale, Princeton, Universidade da Pensilvânia, Dartmouth, Columbia)

Do mesmo autor:

How Billionaires Become Billionaires

O original encontra-se em www.globalresearch.ca/…

Este artigo encontra-se em http://resistir.info

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