A guerra da cor da pele

Foto: AFP para BBC News Brasil

Por Eduardo Tito

Afeganistão, Etiópia, Haiti, Iêmen, Mianmar, Síria e países africanos como Mali, Niger, Burkina Faso, Somália, Congo e Moçambique estão envolvidos em conflitos armados há anos. Alguns desses conflitos com centenas de milhares de vítimas. África, desnutrição infantil aos milhões. Condições humanitárias inexistentes em algumas localidades. Apenas um exemplo: O conflito do Iêmen já dura 10 anos. Mais de 230 mil mortes, ultrapassando 2 milhões de crianças com desnutrição aguda. Todos esses países citados acima, a cor da pele que sangra não pertence a tríade branco, cabelos loiros e olhos azuis.

O cotidiano de uma criança preta, descalça, malvestida, com fome e sede, numa sinaleira ao meio dia de um sol escaldante choca menos do que uma foto de um cachorrinho ferido esquecido em algum lugar. É claro que devemos nos revoltar com os maus tratos aos animais. Mas enquanto isso for mais importante que a vida humana, do preto, nunca deixaremos de ser uma raça de seres irracionais. Em menos de 60 dias, se falou mais na imprensa e nas redes sociais da guerra da Ucrânia com a Rússia do que estes outros conflitos que já vitimaram centenas de milhares de civis nos últimos dez anos.

A fome que maltrata a África há décadas, o massacre de Israel aos povos palestinos, o resultado caótico da invasão, dos massacres em massa e da saída dos EUA do Afeganistão, entregando o país aos extremistas do Estado Islâmico novamente, que impôs um duro regime ao povo da região assassinando opositores, proibindo mulheres e crianças de frequentarem escolas e espaços públicos, cerceando a liberdade do povo e punindo com morte quem infringir suas leis.

Para o Brasil preconceituoso, não importa o crime. Importa quem comete o crime! Se o crime é cometido por um preto, é vagabundo, marginal que merece os rigores da lei. Se o mesmo crime for cometido por uma pele branca “calma, ele errou, é fase de crescimento”, assim pensam e agem as Raquel Sheherazade e os Alexandre Garcia do Brasil.

As feridas do passado continuam sangrando na pele preta brasileira. Os chicotes continuam ricocheteando em nossas costas. Todos sabem como o preto é abordado pela polícia em qualquer lugar. Das favelas aos bairros nobres os duros tratamentos são os mesmos. Todos sabem como a pele preta é perseguida nas lojas dos shoppings. Como as empregadas e empregados são tratados nos prédios de luxo. Os pretos e pretas são maioria nos presídios e nas favelas brasileiras.

Enquanto a pele preta morre de todas as tristes formas possíveis por causa da discriminação, enquanto os brancos soldados ucranianos negam o direito de igualdade ao povo preto em momentos de conflitos de guerra, proibindo os imigrantes da pele preta subir nos ônibus para escapar do horror dos ataques russos, parte da sociedade brasileira prefere acreditar em mamadeiras de piroca e minimiza a existência do racismo no Brasil.