A tragédia da fome

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Irmão do Henfil, Betinho. Recordo-me dele incansável correndo Brasil tentando mobilizar pessoas para mitigar a fome, à falta de políticas públicas capaz de fazê-lo. Lula, início de seu primeiro governo, definindo numa síntese o programa dos quatro anos, e seriam oito: três refeições por dia. Queria garantir isso a cada brasileiro. Garantiu. Tirou o Brasil do mapa da fome, galardão insólito a nos incomodar havia tanto tempo. Milagre? Não. Política. Prioridade. Agora, como espectro assombroso, a fome volta. O passado nos revisita, tenebroso e persistente.

Vamos combinar: não volta por acaso, por castigo de Deus, nem pela pandemia. Volta como parte de um projeto de destruição. De uma Nação, destruição a atingir o povo brasileiro, sobretudo e especialmente os mais pobres. Não, não me queiram panfletário inconsequente. Quando digo projeto, mato a cobra e mostro a cobra morta. Começou com o golpe de 2016, liderado por Michel Temer, golpe contra a presidenta Dilma, assemelhado com o de 1964, na visão de banqueiro acumpliciado e beneficiário do atual governo, comparação imprópria sob tantos aspectos, mas ao menos reveladora da atuação do rentismo no ato golpista recente, seguindo tradição das classes dominantes brasileiras.

Nesse projeto, Temer foi o abre-alas, o pavimentador do caminho da eleição do atual presidente, cuja palavra sempre caminhou rente com política de destruição. “Eu quero é prova”, costumam dizer os nossos jovens. Justo. Na campanha, nunca negou: vinha pra destruir. E logo ao assumir, em viagem aos EUA, à pátria-mãe, lá dele, anunciou com todas as letras: não viemos para construir, mas destruir – nosso trabalho será o de destruir. E vamos ser verdadeiros? Está sendo coerente. Em pouco tempo, o país viu destruídas conquistas históricas, de toda natureza. Retrocedeu quase um século. A fome é consequência inevitável da política neoliberal-rentista em andamento. Negar, quem há de?

Vamos combinar outra coisa: o presidente não caminha sozinho. Nem se sustenta sozinho. Conta com as bênçãos de classes dominantes perversas, cruéis, incapazes de olhar o entorno, cientes, isso sim, de seus seculares privilégios, aos quais se agarra com unhas e dentes. Claro: se poderá dizer de defecções de parte delas – defecções não suficientes para tirá-lo da frente, para apoiar o impeachment. Estou falando das classes sociais internas, não do capital internacional, cujo interesse, por obviedade, é o de apenas sugar o quanto possa do país – e logo acrescento, vou e volto: nossas classes dominantes, também. Num embate de segundo turno, a opor Lula e o atual presidente, torço para que ao menos uma parte dela tenha sensibilidade de não repetir 2018.

Essas classes dominantes sequer pensam no problema da fome. O olhar sempre está voltado para o teto de gastos e para a renda advinda de seus fundos, os existentes no Brasil e aqueles da Caixa de Pandora. A fome não é problema novo no Brasil. Penso em Josué de Castro e seus Geografia da Fome, Geopolítica da Fome, Sete Palmos de Terra e um Caixão, Homens e Caranguejos. Os títulos falam pelas obras. Foi um ativo combatente por políticas capazes de responder a essa tragédia.

Morreu amargurado na França, depois de a ditadura tê-lo obrigado ao exílio. Waldir Pires me dizia muito da tristeza dele em se quedar impedido de contribuir com seu país por força do arbítrio. Morreu em desalento, amargurado, depois de tanto ter feito pelo Brasil. Sou assaltado, assim, num repente, por Manuel Bandeira, pelo inesquecível poema. “O Bicho”: lembram? Permaneceu na memória do povo brasileiro. Compensa revisitá-lo.

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos
Quando achava alguma coisa
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

O poeta escrevia ao final da década de 1940. Brasil contava com cerca de 50 milhões de habitantes. Estivesse vivo, o poeta defrontaria hoje com um país de mais de 212 milhões de habitantes e uma fome a atingir níveis assustadores – insista-se: tendo voltado ao mapa da fome. A indignação de Manuel Bandeira seria ainda maior, pudesse assistir a tantos milhões passando fome, em espetáculo a indignar quem tenha alguma sensibilidade.

Houve momentos de assombrar. Aquela fila sem fim num açougue de Cuiabá, no Mato Grosso. Dá pra esquecer? Mato Grosso, se enganado não estiver, é maior estado produtor de carne bovina do país. Conheço gente relatando a delícia da carne uruguaia – mal sabe seja proveniente do Mato Grosso. Exporta a melhor carne.

A fila, naquele açougue, era para receber ossos. Não, não era para dar aos cães – fila de gente, de pessoas humanas. Osso pra cozinhar, sentir o cheiro, o gosto da carne – cruel e verdadeiro. A fila ganhou o mundo. Sucesso midiático, a tragédia brasileira.

Lembram dos cariocas? Falo de gente vasculhando, mexendo com as mãos, doida pra encontrar algum resto, qualquer sobra naquele caminhão de ossos e pelancas desprezados por supermercado. Eram homens ou bichos? Homens. Gente.

Números frios, assustadores, e à disposição indicavam a existência, em 2020, de 19,1 milhões de brasileiros com fome. Quase 9 milhões a mais em relação ao número de 2018, já assombroso: 10,3 milhões.

A realidade da fome atinge com mais crueldade as crianças, como se sabe. De cada três crianças brasileiras, uma apresenta quadro chamado anemia ferropriva – falta de ferro no organismo. O ferro é encontrado no leite materno, na carne vermelha e em alguns vegetais, como folhas verde-escuras, o feijão e a soja, e na mesa dos pobres esses itens inexistem, ou são escassos.

A chamada insegurança alimentar atinge no Brasil de hoje quase 120 milhões de pessoas, mais da metade da população brasileira sem uma alimentação regular – de alguma forma, passando fome.

Pés e miúdos de galinha passaram a ser consumidos em larga escala, a carne vermelha quase sumiu da mesa dos mais pobres – 67% da população reduziu consumo de carne, 47%, o de pão.

O macarrão passou a ser consumido em larga escala, o miojo também, evidenciando a perda de qualidade da alimentação. Fome, dessas graves, e subalimentação – a realidade de mais da metade da população brasileira.

A lembrar: em outubro de 2020 14 milhões de famílias viviam na extrema pobreza. Isso quer dizer 40 milhões de pessoas com renda per capita de até R$ 89,00 – miséria, miséria. Chegou em junho de 2021 ao maior número desde o início dos registros, em 2012: 41,1 milhões de pessoas. Espiral ascendente.

O quadro se torna mais trágico se o olhar se desloca para o desemprego: quase 14 milhões de desempregados, 6 milhões dos chamados desalentados, aqueles sem ânimo para continuar procurando emprego, e 34 milhões no trabalho informal – mais de 50 milhões sem emprego ou trabalhando precariamente. Um país a massacrar o povo, projeto em andamento desde o golpe de 2016.

É lugar comum, truísmo: a questão é política. Isso só é possível mudar com nova política. Nós já vimos a possibilidade de enfrentar com vigor o problema da fome. Foi com Lula e Dilma. Em 2022, Lula vai encontrar um país destroçado – estamos dizendo vai porque creio na eleição dele, para o bem do Brasil.

Ao encontrá-lo destroçado, saberá definir prioridades, e uma das primeiras será a fome. Prioridade zero. Fome zero. Será enfrentada não só com a renda do Bolsa Família, mas com políticas de emprego, fortalecimento da agricultura familiar, com tantas outras políticas públicas voltadas à melhoria das condições de vida dos mais pobres, receitas conhecidas, e descartadas pelo neoliberalismo rentista. E com Lula, viveremos a grande política, voltada à reconstrução da Nação. Sob a democracia.

Artigo de Emiliano José: O jornalista, ex-deputado e escritor Emiliano José, fala, em seu artigo, sobre a grave social que o Brasil enfrenta, com a volta do país ao mapa da fome, de um projeto, iniciado no golpe de 2016, liderado por Michel Temer, para retirar a presidenta Dilma da presidência da república, para atingir o povo brasileiro. Emiliano faz um contraponto entre a grave situação atual e os tempos de prosperidade nacional nas gestões petistas.

“Lula, início de seu primeiro governo, definindo numa síntese o programa dos quatro anos, e seriam oito: três refeições por dia. Queria garantir isso a cada brasileiro. Garantiu. Tirou o Brasil do mapa da fome, galardão insólito a nos incomodar havia tanto tempo. Milagre? Não. Política. Prioridade”.

Ascom PT Bahia