As primeiras e as pequenas delícias

Foto: Acervo Pessoal

Por Chico Ribeiro Neto

Coçar o ouvido com um palito de fósforo. Outro dia vi um mecânico na porta do oficina coçando o ouvido com a chave de fenda.

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A primeira bola de sorvete, o primeiro beijo e o primeiro gol.

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A primeira mulher que vi de biquini. Na verdade, foram várias de uma vez só. Eram as patinadoras que apresentavam em Salvador o show “Arco Íris no Gelo”, no Ginásio Antonio Balbino, estavam hospedadas num hotel da Rua Democrata, no Largo 2 de Julho, e foram tomar banho de mar na Praia do Unhão. Foi inspiração pra uma semana.

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O primeiro cachorro-quente, o primeiro milk-shake e o primeiro dusty miller na Cubana: 2 bolas de sorvete, 2 caldas, 1 biscoito e leite em pó.

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A primeira calça comprida. Não queria nem tirar pra lavar, pois só tinha ela. A primeira camisa Ban Lon azul celeste.

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A beleza e graça de Júlia, a filha da espanhola que foi morar lá na rua.

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O primeiro copo de Ki-Suco (“um envelope dá um litro”) e o primeiro copo de cerveja. Foi em Itapuã, misturado com guaraná. Horrível.

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A primeira TV: o mundo que eu já adivinhava pelo rádio entrou de cara na minha casa.

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A primeira festa dançante de gente grande. Eu tinha uns 15 anos e fui com o amigo Géo Beleza, uns dois ou três anos mais velho. Foi na Faculdade de Direito da UFBA. Na década de 60/70 vários diretórios de faculdades promoviam festas. Tinha festa na Politécnica, em Letras, Odontologia, Filosofia, Enfermagem. Na Escola de Belas Artes, no Canela, as noites dançantes eram mais quentes porque a certa hora apagavam a luz, “coisa desses artistas plásticos, que sempre são mais ousados”.

A festa em Direito estava animada, mas quando deu 1 hora da manhã eu disse a Géo: “Rapaz, tenho que ir embora, pois minha mãe disse pra eu chegar até meia-noite”. E Géo me aconselhou: “Chico, fica logo até o final. O esporro de 1 hora da manhã é igual aos esporro das 5 horas”. Só fui embora às 5. Atravessei a pé o Vale do Canela ouvindo os passarinhos cantando e sentindo o cheiro e o corpo das mulheres com quem dancei. Saí no Hospital das Clínicas, atravessei o Campo Grande e fui para a Ladeira dos Aflitos, onde me aguardava o esporro das 5 horas, o mesmo de 1 hora. Eu é que não era mais o mesmo. Me sentia gente grande. O coração batia forte. Já não eram mais as meninas lá da rua. Eu dancei com universitárias!

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