Atraso para tomar 2ª dose não prejudica imunização contra a COVID-19, explica infectologista

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Pelo menos nove capitais brasileiras suspenderam a aplicação da segunda dose da vacina contra a COVID-19 fabricada pelo Instituto Butantan, a CoronaVac. Os municípios alegam que as mudanças nas regras do Ministério da Saúde prejudicaram o estoque do imunizante.

Em março deste ano, o Ministério da Saúde mudou a orientação enviada a estados e municípios e autorizou que todas as vacinas armazenadas para aplicação da segunda dose fossem utilizadas como primeira dose.

Daniel Junger, médico infectologista, lembrou que a falta de vacinas é um problema enfrentado por diversos países ao redor do mundo.

“Há uma demanda gigantesca e uma capacidade limitada de produção em tempo hábil de doses suficientes para que se atinja a imunidade de rebanho vacinal em todos os países que precisam dela”, disse à Sputnik Brasil.

A CoronaVac se viu algumas vezes no centro de uma disputa política entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), responsável pelo acordo que trouxe a vacina para o Brasil.

O governador de São Paulo, João Doria, exibe uma caixa com a vacina CoronaVac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac
© REUTERS / CARLA CARNIEL O governador de São Paulo, João Doria, exibe uma caixa com a vacina CoronaVac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac

A falta de apoio por parte do governo federal na produção da vacina e a demora do Ministério da Saúde para comprar as doses podem ser, inclusive, apresentadas na CPI da COVID-19 no Senado Federal como elementos que contribuíram para a lentidão da imunização no Brasil. As constantes críticas sobre a eficácia da CoronaVac pelo presidente Bolsonaro também devem ser mencionadas.

No fim de janeiro, por exemplo, Bolsonaro disse que “não há nada comprovado cientificamente sobre essa vacina aí”, mesmo após o imunizante já ter sido aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

“Se a gente tem uma política externa, tanto em termos de negócios como de posicionamentos, que não foi favorável, isso pode influenciar negativamente desde uma barganha até um negócio puramente matemático para se resolver as coisas”, declarou Junger.

O balanço da vacinação contra a COVID-19, divulgado nesta segunda-feira (3), aponta que 32.316.507 pessoas já receberam a primeira dose de vacina contra o novo coronavírus. O número representa 15,26% da população brasileira.

A segunda dose já foi aplicada em 16.279.037 pessoas (7,69% da população do país) em todos os estados e no Distrito Federal. No total, 48.595.544 doses foram aplicadas em todo o país.

Daniel Junger explicou que a aplicação de uma segunda dose ocorre quando “o efeito da primeira dose começa a decair em relação à imunidade de memória, aquela que protege por mais tempo”, mas que ainda não há estudos que estabeleçam um intervalo máximo em que as duas doses devam ser aplicadas.

“Nós não temos uma documentação oficial dizendo o intervalo máximo permitido, então se a gente atrasa em relação ao intervalo previsto não tem problema. O problema é a gente fazer com intervalo menor”, alertou.

Doria disse em março deste ano que o Instituto Butantan deve começar a produzir integralmente a CoronaVac, sem depender do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), que vem da China, em dezembro deste ano.

Segundo o infectologista, a possibilidade de a CoronaVac ser produzida integralmente no Brasil poderá diminuir a falta de doses, mas que não deve sustentar toda a demanda brasileira.

“Não tem como garantir que isso vai suprir toda a nossa a necessidade porque tem que imaginar que temos que vacinar 80% da população brasileira, cerca de 160 milhões de habitantes, talvez um pouco mais, para termos 70% da população vacinada para que, com isso, a gente haja um bloqueio da cadeia de transmissão do vírus”, completou.

Fonte: Sputnik Brasil

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