Brasil tem metade das fábricas automotivas paradas: ‘Dos piores cenários em décadas’, diz analista

Washington Costa / Ministério da Economia

Entre os vários setores industriais prejudicados pela pandemia no Brasil, o automobilístico aparece como um dos mais atingidos: 13 das 23 montadoras com fábricas no país entraram em paralisação total ou parcial.

Das 58 fábricas automotivas no Brasil, 29 estão paradas – exatamente metade do total. Em entrevista à Sputnik Brasil nesta segunda-feira (5), Ricardo Balistiero, economista e coordenador do curso de administração do Instituto Mauá de Tecnologia, afirma que uma das consequências mais graves da crise no setor automobilístico é o desemprego.

“Este é um dos piores cenários que o Brasil enfrentou ao longo das últimas décadas. Há toda uma geração de brasileiros que de alguma maneira pôde ser classe média durante décadas graças à presença das montadoras aqui no país. A partir do momento em que as montadoras entendem o Brasil como um país que já não tem mais a mesma atratividade, elas vão repensar a presença delas no país”, diz Balistiero.

Balistiero argumenta que o fechamento das fábricas pode ser explicado por quatro fatores principais. O primeiro deles é o pano de fundo: a crise causada pela pandemia que assola o mundo inteiro. O segundo é a queda de demanda por carro no mercado brasileiro: diante da pandemia, uma considerável parcela da população passou a trabalhar de casa, e com isso os deslocamentos diminuíram.

O terceiro fator é a falta de peças. Os semicondutores, essenciais para as partes eletrônicas dos veículos, são produzidos principalmente pela China – e, na retomada da economia, os chineses estão priorizando o mercado interno. Como consequência, muitos países enfrentam escassez deste tipo de peça. Este cenário leva ao quarto fator: o Brasil não é produtor das peças utilizadas para montar os carros.

“O Brasil precisa mudar o seu modelo de produção de veículos. O Brasil é apenas um montador de veículos, um montador de computadores, aqui no Brasil a gente não desenvolve absolutamente nada”, avalia o economista.

Trabalhadores dentro da montadora da Jeep, em Goiana (PE), no dia 6 de setembro de 2019
© FOTO / WASHINGTON COSTA / MINISTÉRIO DA ECONOMIA Trabalhadores dentro da montadora da Jeep, em Goiana (PE), no dia 6 de setembro de 2019

Controlar a pandemia é essencial para reverter a situação

Com o fechamento de metade das fábricas de carros no Brasil, entre 60% e 70% dos cerca de 105 mil empregados diretos do setor automotivo estão em casa nesse momento. Especialistas estimam que até 300 mil veículos podem deixar de ser produzidos esse ano.

Segundo Balistiero, este cenário pode resultar no afastamento de fábricas que pensam em se instalar no Brasil – ou, na pior das hipóteses, na fuga de fábricas que já estão aqui, como aconteceu recentemente com a Ford. Na opinião do economista, o Brasil só conseguirá evitar este cenário quando for capaz de lidar melhor com a pandemia.

“Nós não temos nenhum controle sobre a pandemia, e isso certamente vai se refletir em mais desemprego. E isso piora a situação social de muitos trabalhadores, porque eles terão dificuldade para se recolocar e conseguir salários equivalentes ao da industria automobilística, que tradicionalmente paga bons salários”, diz o especialista.

Máquinas na linha de produção da fábrica de veículos da Ford em São Bernardo do Campo (SP)
© FOLHAPRESS / RODRIGO PAIVA Máquinas na linha de produção da fábrica de veículos da Ford em São Bernardo do Campo (SP)

Quem deve se beneficiar da crise do setor automobilístico no Brasil é a Ásia. Segundo Balistiero, o mercado asiático é o de maior oportunidade para as montadoras automotivas. Por lá, a situação é a inversa do Brasil: há melhora na renda e no poder de compra da classe média, os países têm lidado bem com a pandemia, e a região conta com muitas montadoras locais.

“O Brasil vai ficar mais uma vez para trás, já que ainda estamos cuidando do combate à pandemia. Enquanto estes países pensam em desenvolvimento tecnológico e energia limpa, nós ainda estamos muitos passos atrás, que é entender a pandemia”, finaliza o economista.

 

Fonte: Sputnik Brasil