Com Bolsonaro ausente: o que Brasil tem a perder e ganhar na COP26?

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A Sputnik Brasil conversou com dois especialistas para compreender o que esperar da participação, bem como das metas, promessas e exigências do Brasil na COP26.

A 26ª Conferência do Clima, ou COP26 (na sigla em inglês), decorre de 31 de outubro a 12 de novembro em Glasgow, Escócia.

A delegação brasileira será a segunda maior da COP26, contudo, não vai contar com o presidente Jair Bolsonaro.

Para entender um pouco mais sobre a participação, bem como as metas, promessas e exigências do Brasil na COP26, a Sputnik Brasil conversou com o prof. Leandro Consentino, cientista político pela USP e professor do Insper, e Juliana Ianhez, economista e coordenadora do curso de graduação em Economia do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).

De acordo com o professor Leandro Consentino, do ponto de vista diplomático certamente seria lógico comparecer aos dois eventos, tanto à cúpula do G20 quanto à COP26.

“A questão é que, do ponto de vista das crenças que motivam o governo Bolsonaro, parece haver uma tendência de privilegiar mais o que seria o crescimento e desenvolvimento econômico do que a pauta ambiental. Isso é um equívoco, dado que a maioria dos países, tanto no G20 quanto na COP26, tratou as coisas de maneira associada, e parece que o Brasil não fez essa lição e isso é ruim do ponto de vista sobretudo da liderança que o Brasil ocupava na sinergia entre estes dois temas’, afirmou.

Para a economista Juliana Ianhez, os protestos contra o governo pesaram na decisão de não ir à COP26.

“O governo brasileiro tem sido cobrado de maneira direta e indireta por um posicionamento mais assertivo e mais comprometido com as questões climáticas, com a sustentabilidade, e o governo brasileiro não tem respondido a isso”, destacou a economista.

Além disso, ela ressalta que muitas vezes o governo faz questão de ignorar certas pautas.

“Nesse caso, o Bolsonaro indo à COP [26] ele seria cobrado, como deve ser cobrado o chefe de uma nação que se compromete de partida com questões ambientais, ainda que de uma forma inferior à necessária e não as cumpre. Então ele percebeu que, dentro de sua estratégia, o melhor era ir à conferência do G20, onde ele ainda tem algumas coisas para defender, e inclusive apoios a tentar, parcerias a construir, do que em um lugar que, certamente, ele seria muito cobrado, e ficaria desconfortável com essa situação”, explicou.

Juliana Ianhez enfatizou que o problema disso é que a participação do Brasil em conferências como a COP é fundamental para que o país consiga mostrar algum tipo de comprometimento com pautas que possam fazer com que o Brasil consiga ganhar mais parcerias, melhorar acordos comerciais, aumentar número de contratos e, sendo assim, há uma conta a pagar resultante dessa não participação do presidente brasileiro na COP.

O professor Leandro Consentino também acredita que os protestos tenham pesado para a decisão de Bolsonaro, já que o presidente brasileiro deseja ter uma imagem positiva no exterior, “dado que o flanco interno hoje desfavorece as pesquisas de opinião”, que demonstram que a popularidade não vai bem devido ao fracasso no combate a pandemia, à questão econômica do país, entre outros problemas.

Já a economista Juliana Ianhez acredita que esta atitude de Bolsonaro de não participar da COP mostra que a preocupação do atual governo seja, de fato, com a questão econômica.

“O governo Bolsonaro está muito preocupado com a imagem com a qual o Brasil está sendo visto lá fora, da maneira de como o Brasil tem tratado as questões econômicas, como o Brasil tem fomentado esta retomada. E as questões climáticas nunca foram, de fato, uma prioridade do governo Bolsonaro”, ressaltou a economista.

Para a economista, Bolsonaro, desde que assumiu o comando do país, demonstrou sua intenção de colocar a economia do país para cima, “muito provavelmente para deixar sua marca dentro do governo”, deixando a pauta ambiental de lado, e a ausência na COP é a concretização disso.

Boicote de medida provisória

Anteriormente, Bolsonaro havia acusado Rodrigo Maia de ter boicotado uma medida provisória que tratava da regularização fundiária, dizendo que com esta medida a situação na Amazônia melhoraria.

Juliana Ianhez diz não ver fundamento na acusação de que Rodrigo Maia teria boicotado a medida provisória de regulamentação fundiária que poderia melhorar a situação da Amazônia.

“Há uma questão muito política, que é jogar a culpa para o adversário por coisas que ele não fez, por questões que ele não conseguiu resolver ou que tenha se empenhado pouco para resolver […] Colocar a culpa na sua oposição por coisas que não aconteceram, parece que o presidente em alguns momentos não entende muito o jogo político”, observou.

Para Leandro Consentino a questão da MP (medida provisória) é mais de crença do governo do que de fato é a pauta real.

O professor também afirmou que, quando Bolsonaro associa o fracasso da proteção da Amazônia com essa questão da MP fundiária, ele está terceirizando a responsabilidade e tentando agradar de alguma forma às bases que fornecem sustentação a ele, que é a base do agronegócio, subordinando a pauta ambiental a essa pauta ligada aos agropecuaristas.

Joaquim Leite usado como ‘bode expiatório’

Com relação ao Joaquim Leite, o professor afirmou que o ministro do Meio Ambiente “entrou de gaiato no navio”, ou seja, ele de alguma forma foi lançado a essa posição, quase que de maneira interina, e pegou uma “bomba na mão” ao representar a pauta ambiental complicada no ponto de vista externo.

“O Brasil hoje já não tem a liderança que tinha na área ambiental, e dificulta muito o fato de você ter um passivo muito grande para exibir lá fora. Acredito que o Joaquim Leite está conduzindo como se fosse um interino, um subordinado […]”, explicou.

Juliana Ianhez diz acreditar que o ministro Joaquim Leite tenha sido colocado na COP como um “bode expiatório”.

“Ele foi colocado para representar o país, mas o governo sabia de antemão que o Brasil seria cobrado e que o representante brasileiro levaria pedradas de todos os lados. O Brasil não tem feito sua lição de casa, levando em consideração o que a COP espera dos participantes dos países”, declarou a economista.

Discurso de Bolsonaro e metas assumidas pelo Brasil

A economista Juliana Ianhez afirmou que o discurso do presidente brasileiro é o que se espera ouvir de um chefe de Estado de um país importante e fundamental em pautas ambientais, como é o caso do Brasil.

Ela também ressalta que o Bolsonaro fala o que a audiência quer ouvir, contudo, o problema é que nesse caso o “discurso se decola da prática”, e a audiência sabe que a prática é muito diferente das palavras do presidente, gerando a falta de credibilidade e ficando cada vez mais distante de seus pares com relação a isso.

“Esse discurso muito distante da prática faz com que sejamos vistos com muita desconfiança. O Brasil perde bastante sua credibilidade em tentar seguir pelos caminhos que todas as nações desenvolvidas e em desenvolvimento buscam, de uma economia sustentável, que olham para as questões ambientais e que entendem que elas são fundamentais para que consigamos dar passos adiante ao longo do tempo, pensando em um desenvolvimento sustentável”, explicou.

Seguindo a linha de pensamento, o professor Leandro Consentino afirma que o discurso de Bolsonaro é um discurso protocolar, tímido e que não condiz com o momento grave sobre a questão ambiental.

“Essa é uma posição lamentável do Brasil, que poderia ter uma posição, e tinha de fato, de liderança nesse aspecto ambiental, e que hoje está simplesmente repetindo teses passadas”, observou.

Ações do Brasil importam mais que ausência de Bolsonaro

Kristina Rosales, porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos para a América Latina, disse que as ações concretas do Brasil importam mais do que a ausência de Bolsonaro na cúpula do clima.

Para Juliana Ianhez, a porta-voz Kristina Rosales deixa muito claro que o mundo está atento à prática e não só às palavras do presidente.

“A ausência dele [de Bolsonaro] dentro da COP, ela poderia ser completamente esquecida ou em algum momento relevada se a prática do Brasil fosse diferente, se o Brasil hoje tivesse uma economia preocupada com a questão ambiental. O que a porta-voz deixa muito claro é que o mundo está de olho naquilo que o Brasil faz ou no que o Brasil deixa de fazer, e isso tem sido muito significante para que se pense em políticas no âmbito internacional, olhando inclusive para a inserção do Brasil dentro desse mundo e dessa nova economia sustentável”, enfatiza.

Por sua vez, Leandro Consentino afirma acreditar que a pressão deva continuar e, nesse caso, o Departamento de Estado dos EUA tem uma visão de curto, médio e longo prazo, tentando convencer o Brasil sobre a importância das pautas.

O professor também explica que os EUA estarão de olho no Brasil após as eleições de 2022, quando será possível reconstruir uma sinergia entre os dois países.

Fonte: Sputnik Brasil