COVID-19: é função do governo estimular as pessoas a voltarem a ficar em casa, diz epidemiologista

© Folhapress / Fernando Souza / Agif

Um levantamento realizado pelo Imperial College de Londres divulgado nesta quarta-feira (10) diz que a transmissão da COVID-19 no Brasil está em alta e em aceleração.

Para Guilherme Werneck, médico epidemiologista e professor do Instituto de Medicina Social da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o levantamento do Imperial College apenas reforça a impressão que a comunidade científica tem sobre a pandemia no Brasil.

Boa parte da culpa pela aceleração da pandemia é, segundo Werneck, do governo. O especialista argumenta que, passado quase um ano do início da pandemia no Brasil, ainda não se viu quase nenhum exemplo de medidas incisivas e eficazes para que a população permaneça em casa e evite circular nas ruas.

“As pessoas estão cansadas. E como elas veem que está tudo abrindo, que tudo está normal, elas começam a relaxar. […] É uma função do Estado, do governo, gerar esta comunicação e mobilização para que as pessoas voltem a sair menos”, diz Werneck, em entrevista à Sputnik Brasil.

Werneck ressalta que, mesmo enquanto os números no Brasil estavam em queda, “nós nunca de fato controlamos a transmissão da COVID no território nacional”. Apesar de não eximir de responsabilidade a parcela da população que não toma as medidas que deveria tomar (como o distanciamento social e o uso de máscaras), o especialista culpa o governo pela omissão frente ao avanço de casos. 

“Estamos numa situação grave, registrando uma quantidade de óbitos muito alta, com a média móvel também muito alta, mostrando que a situação da pandemia no Brasil ainda é muito precária”, avalia o médico.

Nos últimos meses, foram detectadas três diferentes variantes do novo coronavírus no território brasileiro. Além da cepa encontrada no Amazonas, que levou o estado ao colapso do sistema de saúde, o Brasil também já registrou casos das variantes oriundas do Reino Unido e da África do Sul. É importante lembrar que o surgimento de variantes em pandemias é algo esperado – e novas cepas tendem a surgir ao longo dos próximos meses.

Filha do cônsul indiano no Rio de Janeiro, profissional da saúde da linha de frente, recebe dose de vacina da Oxford/AstraZeneca, no Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2021
© AP PHOTO / BRUNA PRADO Filha do cônsul indiano no Rio de Janeiro, profissional da saúde da linha de frente, recebe dose de vacina da Oxford/AstraZeneca, no Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2021

Werneck ressalta que a transmissão do novo coronavírus não é necessariamente simultânea em todas as regiões do país. Ou seja, o Norte e o Nordeste podem estar passando por um momento mais delicado atualmente, mas nada impede que a pandemia avance da mesma forma no Sul e em outras regiões futuramente.

“A situação do Amazonas, por exemplo, tende a ser reproduzida, em curto ou médio prazo, em outras cidades e estados brasileiros. […] Houve um relaxamento muito grande do controle da pandemia. A vida praticamente voltou ao normal, as pessoas começaram a sair com muita frequência”, alerta o especialista.

O epidemiologista não poupa críticas ao governo também em relação à vacinação dos brasileiros. Até esta quarta-feira (10), 4.321.678 pessoas haviam recebido a primeira dose da vacina contra o novo coronavírus no país – o que representa apenas 2,04% da população brasileira.

“O papel desempenhado pelo governo federal na obtenção das vacinas, seja nas tratativas com as empresas, com os estados e com outros países sempre foi incompetente e insustentável, sem nenhuma capacidade de reconhecer a relevância e a importância de se vacinar rapidamente grandes parcelas da população”, afirma Werneck.

Nesta quinta-feira (11), a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro anunciou que a vacinação na cidade corre o risco de ser interrompida por falta de imunizantes contra a COVID-19. Também nesta quinta-feira (11), uma reportagem do portal Congresso em Foco mostrou que o governo federal gastou pelo menos R$ 6,1 milhões em campanha para estimular o uso de remédios sem comprovação científica no tratamento precoce da COVID-19.

 

Fonte: Sputnik Brasil