CPI apura se Prevent Senior testou “kit covid” em pacientes sem avisá-los

Bolsonaro usou estudo da Prevent para defender em suas redes sociais o "kit covid". Reprodução DW

Na reta final de seus trabalhos, a CPI da Pandemia buscará esclarecer por qual motivo a operadora de saúde Prevent Senior envolveu-se na disseminação do uso e em estudos sobre o chamado “kit covid”, composto por medicamentos ineficazes contra a doença defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro, como a cloroquina, a azitromicina e a ivermectina, que podem inclusive agravar a saúde dos pacientes.

Segundo acusações em poder da comissão, detalhadas em reportagens veiculadas pela GloboNews, a Prevent Senior pressionou seus profissionais a receitarem o “kit covid” e realizou uma pesquisa ministrando os medicamentos a pessoas com suspeita ou diagnóstico de covid-19 sem informar os pacientes ou seus familiares.

O diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, que também é tenente médico da reserva do Exército, havia sido intimado pela CPI da Pandemia a prestar depoimento nesta quinta-feira (16/09), mas não compareceu sob argumento de que fora comunicado com menos de 48 horas de antecedência.

Os senadores remarcaram seu depoimento para a próxima quarta-feira, e ameaçaram acionar a Justiça para que ele seja conduzido coercitivamente. O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), pretende apresentar seu relatório até o final da próxima semana.

Tratamentos experimentais

O senador Humberto Costa (PT-PE), autor do requerimento da convocação de Batista, afirmou que a comissão recebeu denúncias de médicos de que a operadora teria pressionado profissionais a receitar o “kit covid” e realizado tratamentos experimentais sem o consentimento de pacientes.

“Uma das coisas que o hospital orientava era que os pacientes e os seus familiares não tivessem conhecimento de que essa experiência estava sendo feita, que não tivessem conhecimento de que estavam sendo administrados esses medicamentos. A informação que se tem é que isso foi um acerto entre a direção do hospital e o governo federal”, afirmou Costa. Não está claro, porém, quais seriam os termos desse suposto acordo entre a Prevent e o governo Bolsonaro.

Segundo a GloboNews, o estudo começou a ser realizado em 25 de março de 2020 e a primeira versão dos resultados foi divulgada em 15 de abril. Três dias depois, Bolsonaro compartilhou as informações no seu Twitter, como um suposto exemplo de que a cloroquina seria eficaz contra a covid-19, e mencionando a Prevent.

“Segundo o CEO Fernando Parrillo, a Prevent Senior reduziu de 14 para 7 dias o tempo de uso de respiradores e divulgou hoje, às 1h40 da manhã, o complemento de um levantamento clínico feito: de um grupo de 636 pacientes acompanhados pelos médicos, 224 NÃO fizeram uso da HIDROXICLOROQUINA. Destes, 12 foram hospitalizados e 5 faleceram. Já dos 412 que optaram pelo medicamento, somente 8 foram internados e, além de não serem entubados, o número de óbitos foi ZERO. O estudo completo será publicado em breve”, tuitou o presidente em 18 de abril.

Pesquisa sem consentimento

Mensagem obtida pela GloboNews mostra um diretor da Prevent, Fernando Oikawa, orientando os médicos a ministrarem cloroquina e azitromicina aos pacientes como parte do estudo, com a ressalva que não informassem o paciente ou seus familiares a respeito.

“Iremos iniciar o protocolo de HIDROXICLOROQUINA + AZITROMICINA. Por favor, NÃO INFORMAR O PACIENTE ou FAMILIAR, (sic) sobre a medicação e nem sobre o programa”, escreveu Oikawa em um grupo de aplicativo de mensagens com profissionais da Prevent.

Nove pessoas morreram durante a pesquisa, das quais seis haviam tomado cloroquina e azitromicina, duas não tinham tomado a medicação, e uma sem informação a respeito. Segundo um médico da Prevent relatou à GloboNews, o estudo teria sido manipulado e seus resultados já estariam prontos antes da sua conclusão.

Ainda segundo a emissora, os autores do estudo mencionam só duas mortes entre os pacientes pesquisados. O coordenador da pesquisa, o cardiologista Rodrigo Esper, afirma no estudo que essas duas mortes teriam ocorrido por outros motivos de saúde pré-existentes e não relacionados à covid-19.

Ministério Público também investiga

A reportagem da GloboNews apontou ainda que a Prevent Senior teria ocultado a morte de pacientes que tiveram covid-19 e receberam atendimento em seus hospitais. A emissora teve acesso a uma mensagem de um diretor da Prevent orientando os coordenadores das unidades a alterarem o código de diagnóstico (CID) dos pacientes que deram entrada com covid-19 após algumas semanas de internação.

“Após 14 dias do início dos sintomas (pacientes de enfermaria/apto) ou 21 dias (pacientes com passagem em UTI/Leito híbrido), o CID deve ser modificado para qualquer outro exceto o B34.2 (código da Covid-19) para que possamos identificar os pacientes que já não tem mais necessidade de isolamento. Início imediato”, diz a mensagem.

A justificativa seria liberar os pacientes que não precisariam mais de isolamento, mas a alteração faria com que, caso o paciente viesse a falecer, o registro de óbito deixasse de indicar covid-19 como motivo.

A GloboNews identificou dois casos de pacientes da Prevent que contraíram covid-19 e morreram, mas a doença não constava em suas declarações de óbito. Um deles, além de receber medicamentos do “kit covid”, foi submetido a cerca de 20 sessões de ozonioterapia, uma terapia que só pode ser feita em pesquisas experimentais por instituições credenciadas, uma autorização que a Prevent não detém, segundo a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

A Conep chegou a autorizar a Prevent a realizar o estudo com a cloroquina e a ivermectina, mas suspendeu a pesquisa ao ser informada que ela havia sido iniciada antes da aprovação legal.

O Ministério Público estadual de São Paulo instaurou um inquérito em março para apurar denúncias de que profissionais da Prevent teriam sido forçados a receitar os medicamentos do “kit covid” mesmo antes da consulta e do resultado de exames dos pacientes. O inquérito investiga a recomendação de prescrição de outros medicamentos além daqueles do kit e também sem eficácia contra a doença, como a flutamida, usada no tratamento de câncer de próstata, e o etanercepte, para atrite. Profissionais ouvidos pela GloboNews relataram que sofriam risco de demissão se não seguissem a recomendação da empresa.

Operadora diz ter atuação ética e legal

Em nota, a Prevent Senior afirma que “sempre atuou dentro dos parâmetros éticos e legais e, sobretudo, com muito respeito aos beneficiários”, que prestou todas as informações solicitadas pela CPI da Pandemia e que está à disposição dos senadores.

A empresa também afirmou que pedirá que o Ministério Público apure as denúncias “infundadas e anônimas” contra si, e que irá tomar medidas judiciais para pedir a punição de quem teria feito “denunciação caluniosa”.

“Os médicos da empresa sempre tiveram a autonomia respeitada e atuam com afinco para salvar milhares de vidas. Importante lembrar que números à disposição da CPI demonstram que a taxa de mortalidade entre pacientes de Covid 19 atendidos pelos nossos profissionais de saúde é 50% inferior às taxas registradas em São Paulo”, afirmou a Prevent.

Fonte: Sputnik Brasil