Deputadas afegãs na mira do Talibã: “Mudo de casa a cada dois ou três dias”

Fereshta Amini, ex-deputada pela província de Nimruz, durante a entrevista realizada na última quinta-feira na casa onde se esconde. ÁNGELES ESPINOSA/ Reprodução EL PAIS

Mulheres, ativistas e políticas. As deputadas afegãs estão na mira do Talibã. Algumas conseguiram sair do Afeganistão antes que as ameaças se efetivassem. As que permanecem no país mostram as mensagens de intimidação e chantagem que recebem em seus celulares, e imploram por apoio para escapar. Algumas nem sequer se atrevem a falar. As que o fazem se declaram decepcionadas com a comunidade internacional, à qual pedem que não reconheça nem ajude o regime do Talibã sem contrapartidas que garantam o respeito pelos direitos humanos e pelos direitos da mulher.

Apesar dos seus defeitos, a Assembleia Nacional (Wolesi Jirga) era uma vitrine dos avanços alcançados pelas afegãs desde que a intervenção dos Estados Unidos derrubou a ditadura do Talibã em 2011. Dos 250 membros de sua câmara baixa, 69 eram mulheres, em parte devido ao sistema de cotas, mas também, em alguns casos, por terem superado seus oponentes homens nas urnas. A legislatura foi dissolvida de fato quando os fundamentalistas entraram em Cabul, em 15 de agosto. Embora ninguém tenha cifras exatas, pelo menos 12 deputadas continuam escondidas à espera de ajuda para deixar o país.

“Minha vida está em perigo”

Fereshta Amini (Zaranj, 45 anos), ex-deputada por Nimruz.

É preciso tomar precauções para chegar até Fereshta Amini. Só meia hora antes ela revela o nome do bairro onde será o encontro. Depois informa uma localização. É preciso esperar até que um homem de sua confiança busque a jornalista. No Afeganistão, a confiança, assim como a política, limita-se à família. Um irmão do seu marido atua como assistente.

“Deixei tudo para trás. Só trouxe algumas peças de roupa e os documentos que provam que fui parlamentar, assim como o meu trabalho de ativista social e pelos direitos da mulher. Moro de favor e mudo de casa a cada dois ou três dias. Quando os talibãs vêm ao bairro eu me escondo”, diz ela, com voz angustiada.

Amini estava em Nimruz quando o Talibã ocupou a província, a primeira a cair em suas mãos, no início de agosto, 10 dias antes de entrarem em Cabul. “Escapei por sorte. Entraram na minha casa e mataram o jardineiro”, conta, enquanto seu marido, Masood, mostra o vídeo que os talibãs divulgaram criticando sua forma de vida e o que ela tinha na geladeira. Nas imagens, eles dizem que seus amigos iriam buscá-la em Cabul. Por isso, no dia em que chegaram à capital, Amini e o marido deixaram o lugar onde moravam lá e fugiram novamente. “Viemos até aqui andando”, afirma.

Amini foi a primeira mulher eleita fora da cota reservada (uma ou duas candidatas por província, dependendo do número de cadeiras correspondentes), ao obter mais votos que seu adversário homem. Assim, em 2010, os dois deputados de Nimruz foram mulheres. Ela diz que em 2018 não se candidatou por causa da corrupção que a rodeava.

“Lutei pela democracia, pelos direitos da mulher, pela sociedade civil em Nimruz e em Cabul. Nunca pensei em ir embora porque queria servir ao meu povo”, declara, lembrando que foi dos poucos deputados que apoiaram o acordo de segurança com os EUA em 2013. “Mas os americanos retiraram mulheres que se cobrem com a burca e se esqueceram de mim. Minha vida está em perigo”, diz.

A ameaça é ao mesmo tempo política e pessoal. Seu primeiro marido, Mirwais Najibi, um primo com quem ela teve que se casar sendo muito jovem, se drogava e a maltratava. Por isso, Amini se divorciou e começou a lutar pelos direitos da mulher. “Agora meu ex-marido entrou para o Talibã e todos os dias me ameaça dizendo que virá a Cabul para matar a mim e a minha família”, diz. Ela tem dois filhos do primeiro casamento e quatro do segundo. O mais velho tem 19 anos; a caçula, 8.

Amini está muito decepcionada com o ex-presidente Ashraf Ghani. “Não esperava que ele fugisse assim. Foi desleal abandonando seu país e 20 anos de trabalho. Apoiei sua candidatura na primeira vez que disputou a eleição, mas já não tenho nenhum apreço por ele.”

Farzana Kochai, deputada afegã pela circunscrição especial dos nômades kuchi. Foto de seu perfil do Facebook de 2020.
Farzana Kochai, deputada afegã pela circunscrição especial dos nômades kuchi. Foto de seu perfil do Facebook de 2020.

“Desejei ter asas”

Farzana Kochai (Baghlan, 29 anos), deputada pela minoria nômade kochi

No dia seguinte à entrada doTalibã em Cabul, Kochai, a deputada mais jovem, gravou um vídeo afirmando que ficaria. Quando o EL PAÍS ligou para ela na última terça-feira, Kochai acabava de cruzar a fronteira para uma nação vizinha, onde ainda não se sente segura.

“Minha ideia era ficar”, admite, “mas o Talibã não nos aceita como somos. Nem sequer a um ponto em que pudéssemos chegar a um compromisso.” Ela está convencida de que os fundamentalistas vão ignorar as mulheres. “Teria ficado contente se tivesse podido ficar e trabalhar pelo meu povo. Se não for assim, qual a diferença entre viver aqui e no México? Pelo menos aqui fora eu poderei fazer algo com a minha vida”, diz ela. E denuncia: quando chegou a Cabul, o Talibã prometeu que não buscaria as pessoas em suas casas e que não haveria vinganças, mas isso já está ocorrendo.

Ela conta que um membro do novo regime se apresentou no seu domicílio e lhe disse para não falar tanto. “Advertiu-me para não dar mais entrevistas, mas o mais surpreendente é que disse saber que para mim seria difícil para aceitar este sistema islâmico após desfrutar de 20 anos de liberdade e democracia, mas que, com a ajuda de Deus, eu me adaptaria”, relata, incrédula. “Aconselhou-me a aproveitar o dinheiro que eu tinha ganhado e que deixasse de falar do direito das mulheres ao trabalho”, acrescenta.

Kochai não deu muita atenção e continuou a se reunir com outros deputados e a dar entrevistas. Até que começou a receber mensagens com links para suas declarações. “Esse comentário foi duro. Era você que estava falando? Como você está? Onde está?”, perguntavam-lhe. “Comecei a desejar ter asas. Sabiam onde eu vivia”, afirma, com a voz embargada.

Depois houve outras chamadas nas quais lhe exigiam dinheiro. Tratou de escondê-las da sua família, até que sua mãe lhe contou que um parente que aderira ao Talibã lhe ligou dizendo: “Acabou a festa para vocês, agora é a nossa vez. Vocês não nos ajudaram a tirar nosso irmão da prisão, mas agora vão lamentar”. Pouco depois, um grupo de talibãs foi procurá-la em seu gabinete e, sem encontrá-la, se dirigiu a sua casa. Alertada, ela se refugiou com vizinhos até que, com a ajuda da Noruega, conseguiu escapar do país.

“A política e o trabalho social eram meu sonho, mas renunciei. Arrisquei minha vida, mas não posso mais (…). Estou preocupada demais com a minha família… O meu sobrinho mais velho tem 12 anos. Fiz o que pude por minha gente, os kochis. Sinto não ser capaz de superar o medo que a situação me produz. Não posso fazer mais”, conclui.

“Estou sendo procurada”

Fawzia Hamidi (Mazar-i Sharif, 56 anos), deputada por Balkh

Hamidi pretendia sair do país via Uzbequistão com os dois homens fortes do norte do Afeganistão, Ustad Atta e o general Dostum. Mas, quando chegaram à fronteira, ela não foi autorizada a cruzar. “O Talibã foi à minha casa em Balkh, se apropriou de tudo que tinha de valor, inclusive os quatro carros da família. Estavam me procurando. Como não me encontraram lá, me mandaram mensagens para o celular: ‘Cadê você? Vamos te encontrar Até quando você vai poder se esconder?’. Também fizeram o mesmo com meus familiares”, relata numa gravação do WhatsApp que ela apaga em seguida, como se temesse que pudesse delatar seu esconderijo.

Também envia imagens de como ficou sua casa, e de uma ameaça no celular. Apesar do medo que a levou à clandestinidade, diz que vai manter suas atividades políticas. “Não penso em abandonar. vou continuar defendendo as pessoas de Balkh e todos os afegãos no cenário internacional, em especial as mulheres”, afirma.

Hamidi diz estar em contato com outras deputadas, tanto dentro como fora do país. “Todas confrontamos a mesma situação. Mas não há outro remédio senão ir embora, porque não vão nos permitir continuar com nossas atividades políticas ou em favor da sociedade civil”, afirma. Entretanto, nem ela nem as outras entrevistadas parecem ter uma ideia clara de quantas conseguiram sair do Afeganistão e quantas continuam tentando.

A deputada afegã e ativista de direitos humanos das mulheres afegãs Fawzia Koofi, em seu gabinete, em 12 de setembro de 2019.
A deputada afegã e ativista de direitos humanos das mulheres afegãs Fawzia Koofi, em seu gabinete, em 12 de setembro de 2019. SCOTT PETERSON / GETTY IMAGES

“Não podia sair de casa”

Fawzia Koofi (Kof Ab, 46 anos), ex-deputada por Badakhsan

Depois de se tornar a primeira mulher a ocupar a vice-presidência do Parlamento afegão, Koofi foi uma das quatro representantes femininas na delegação governamental que negociou com o Talibã em Doha (Qatar). Defendia a necessidade de alcançar um acordo mediante o diálogo, mas nem sequer sua mão estendida aos fundamentalistas lhe permitiu se sentir segura sob suas garras. “Não tinha liberdade para me deslocar, nem sequer para sair de casa. Passei as duas primeiras semanas [após a queda de Cabul] trancadas e me sentia isolada do mundo, sem capacidade de ser efetiva”, conta por telefone da capital qatariana. Por isso, decidiu ir embora. “Espero poder voltar logo”, acrescenta, recordando que sua família e sua gente continuam no Afeganistão.

Enquanto isso, Koofi mantém seu compromisso político. “Recebo muitas ligações de mulheres que precisam de ajuda. Também homens. Jornalistas que informaram com valentia sobre as dificuldades do Afeganistão, inclusive a corrupção”, conta. Procura países que possam ajudá-los a viajar para destinos seguros. Mas seu objetivo agora é “apoiar os afegãos com ajuda humanitária” através de sua organização Justice for Equality (Justiça para a Igualdade), que se centra sobretudo na capacitação de mulheres no setor sanitário e para a qual busca recursos.

Apesar de o Talibã ter recusado os apelos pela formação de um governo de coalizão, preferindo em vez disso se lançar à conquista militar de Cabul, Koofi não renuncia ao seu empenho de diálogo. “A maioria dos negociadores deles não está mais aqui, mas tento manter contato para ver se podemos negociar, com o propósito de influenciá-los”, conta. Considera importante a inclusão das mulheres, porque “são as mais efetivas”, mas admite estar “muito decepcionada com o que está acontecendo no Afeganistão”.

Fonte: EL PAIS