Dívida do Paraguai quadruplicou e presidente não tem governança, diz ex-ministra

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A dívida do Paraguai quadruplicou nos últimos dez anos e o presidente, Mario Abdo Benítez, carece de governança, disse à Sputnik a ex-ministra da Saúde Pública e Bem-Estar Social e atual senadora da oposição, Esperanza Martínez.
“Em 2011, com o presidente [Fernando] Lugo [2008-2012] foi o ano com a dívida pública mais baixa e hoje estamos em 2021 com 36,4%, no próximo ano passará para 37%. Em dez anos, a dívida quase quadruplicou com um investimento que se baseou na infraestrutura para a pátria da soja, mas que não teve impacto no cotidiano das pessoas, o ‘gotejamento’ como os neoliberais chamam”, afirmou a ex-ministra do governo Lugo, e membro do partido de esquerda Frente Guasú, Esperanza Martínez.
O “gotejamento” é um termo utilizado para expressar críticas aos neoliberais, que de maneira geral, preferem despender investimentos aos ricos a distribuir renda.
Em julho de 2020, o presidente paraguaio, Mario Abdo Benítez, defendeu o endividamento justificando que “na hora de realizar grandes obras, muitas vezes é necessária a aprovação de projetos que exigem o endividamento do país” como se fosse a única alternativa possível. Na opinião da ex-ministra, o atual presidente “não tem legitimidade” para governar.
Benítez enfrentou duas tentativas de impeachment, mas continua no poder pelo esforço da bancada de seu partido, arranjos setoriais de apoio ao governo e na aposta pela estabilidade política de seu principal adversário, o ex-presidente Horacio Cartes (2013-2018).
A primeira tentativa de tirar o presidente do poder, em 2019, ocorreu por conta de um fracasso no acordo fechado secretamente com o Brasil, sobre uso energético da produção da usina binacional de Itaipu pelos próximos três anos. Segundo analistas, o acordo era danoso à economia paraguaia e implicava, sobretudo, em aumento tarifário. Depois de uma onda de renúncias que incluíram o então chanceler, Luis Castiglioni, o acordo foi finalmente anulado a pedido do Paraguai.
Já a segunda tentativa veio com o colapso dos hospitais com o aumento de casos de COVID-19, em março deste ano. Mesmo com as medidas restritivas antecipadas, a “compra tardia” de vacinas e a falta de medicamentos foram fatores que alimentaram as críticas ao governo.

“Mas aí as ações sobre custo e qualidade técnica foram maculadas pela corrupção, o que gerou a indignação da população. Tivemos o pior manejo das vacinas. No início, parecia que o governo estava especulando com as compras. Uma vez que tiveram as vacinas, não houve campanha de informação e nesta época foram jogadas fora 50 mil doses vencidas, quando a população ainda não ultrapassava os 30% [de vacinados] e as crianças estão sem assistência nas escolas”, acrescentou Martínez.

Grupo de Puebla

As declarações da ex-ministra aconteceram no contexto da realização da cúpula do fórum político e acadêmico da esquerda latino-americana, Grupo de Puebla, realizada nos dias 30 de novembro e 1º de dezembro, na Cidade do México.
Martínez afirmou que o objetivo principal do encontro foi fazer uma análise pós-pandemia, entendendo que os países latino-americanos são obrigados a promover mudanças estruturais para fazer frente às suas deficiências históricas que foram reveladas pela pandemia de COVID-19.
“Há uma desigualdade social que se eleva a extremos com esse modelo neoliberal que, em tempos de pandemia, deixa as pessoas nas ruas, sem esperança, com uma terrível incerteza. Os partidos progressistas da América Latina entendem que é um desafio, que é preciso enfrentá-lo com novas medidas. Não podemos voltar ao novo normal, em que o normal seja a desigualdade, a pobreza e a incerteza”, acrescentou.
Entre os participantes da cúpula estão Lugo, o ex-presidente do governo da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, (2004-2011), o ex-presidente colombiano Ernesto Samper (1994-1998), o do Equador, Rafael Correa, (2007- 2017), e a ex-presidente brasileira, Dilma Rousseff (2011-2016).
Os presidentes da Argentina, Alberto Fernández, e da Bolívia, Luis Arce, participaram do início da cúpula por meio do serviço de videoconferência Zoom.