É possível ser Deus de vez em quando  

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No que concerne a inscrição da tecnologia na civilização, percebo que há uma dualidade expressiva que diz respeito a: se ela é necessária ou adoecedora. Em um polo, está o ato de extensão do homem que cria de acordo com suas demandas e necessidades, enquanto ser social. Vejo que a tecnologia aí, está inserida como uma aliada a novas formas de vislumbrar uma sociedade, um novo mundo e um novo discurso, não é difícil perceber os infindáveis benefícios que tais avanços trouxeram. Entretanto, não é menos verdade que toda mudança carrega consigo infortúnios.

Noutro polo, está o acesso a um lugar-status ansiado e colonizado: a felicidade encontrada nas redes sociais que a civilização precisou abdicar em algum momento, para se tornar civilização. Percebo que nesse lugar o que tem de excesso é a semelhança, a unicidade e o filtro que dis-farça os corpos. O que sobra são as diferenças. Todos são belos ao olhos do filtro da internet, todos estão política e corretamente engajados a cada nova hashtag e estão interligados por um só intento: estarem conectados. Neste polo, a satisfação encontrada pode ser análoga à satisfação que o Criador obtém ao criar o monstro Frankstein, mesmo que haja um espanto com sua própria criação. Como o criador desvencilha-se de sua criatura, tal qual espelho?

Se a arte pode imitar a vida e vice-versa, é possível ser Deus de vez em quando? Há uma fala no episódio intitulado Smithereens, da série Black Mirror cujo personagem pessoaliza a onipotência divina através de um algoritmo, um aplicativo de internet que tudo sabe e tudo vê. Ele, nomeado de Billy Bauer, está coberto em um roupão que conota uma manta sagrada, calça chinelos que fazem referência a humildade e tem cabelos perceptivelmente longos mas amarrados de maneira impessoal. Fala do alto de um monte: “O lado bom do meu cargo é que de vez em quando eu posso invocar o modo Deus”, aperta um botão no seu notebook e, então, está feito.

Aquele dedo que criou Adão, expressado no afresco de Michelangelo, o qual representa um capítulo do Livro do Gênesis onde Deus concebe a sua primeira criatura, agora cria algoritmos. “Os pedacinhos”, tradução de smithereens para o português, faz alusão sobretudo a rede social Twitter quando esta dispõe ao usuário a possibilidade de compartilhar sua vida cotidiana em pequenos textos fragmentados, ou seja, aos poucos, de pedacinhos em pedacinhos sua vida, num dado momento, converte-se em toda. O cotidiano reduzido a 280 caracteres. Ali, percebo que a vida integra-se numa bolha universal, homogênea; ela se faz toda, contrária do que diria Lacan sobre nossa constituição enquanto sujeitos faltosos, incompletos.

A correlação que me proponho a fazer da personificação de um Deus no episódio referenciado com a tecnologia contemporânea, sem vírgulas e globalizada dá luz ao que o psicanalista Charles Melman chama de mutação cultural. Ele diz que a sociedade se organiza através de grandes textos, grandes escritos os quais exercem um papel de autoridade, conselheiro ou divindade, ocupando a função de guiar os sujeitos, de lhes organizar e lhes conduzir a modelos de boas condutas.

Primeiro vê-se Homero com seus discursos heroicos e poéticos que foram recitados pela sociedade grega afora. O segundo seria o que chamo de texto sagrado: a Bíblia. Não é difícil perceber o quão substancialmente esse manual acumula discípulos. E o terceiro diz respeito ao pensamento marxista que dispôs de incontáveis seguidores e defensores.

O que esses grandes textos têm em comum? Certamente seria o que podemos entender como a função Outro: um lugar cujo papel faz-se fundante na nossa constituição. Na teoria psicanalítica, entende-se como Outro aquilo que supõe saber; ocupa posições simbólicas e imperativas em nossa história e nos implica na dialética social de sermos para além de nós mesmos. Necessariamente, consultamos esse Outro como um Oráculo, um Deus, de modo que o colocamos no lugar de saber mais do que sabemos. Posso dizer que ele está acima, no sentido hierárquico, da nossa própria sabedoria.

Dito isso, onde estaria esse lugar Outro no sujeito que navega nas redes? Onde está a dúvida existencial e estrutural naqueles que navegam em redes? O que me parece inteligível é que, entre tantas semelhanças compartilhadas nas pessoas conectadas nesse mundo virtual, uma delas, quem sabe a mais elementar, é a de ter certeza que sabe, de si e do outro. Percebo que aquele que está conectado com as redes e desconectada com a linguagem, como diria o próprio Charles Melman, portanto com a dúvida e o limite,  subestima o Outro abdicando dessa relação vertical pois julga saber igual ou mais. Nesse sentido ele anula as diversidade dos saberes, uma vez que no ensinamento e no lugar de aluno, de sujeito barrado e findável existe o limite. Ora, há limites naquele que se conecta?

Vejo que há, nesse mundo virtual, algo que interliga as massas e faz com que tal relação se estabeleça a partir de uma lógica simétrica, uma ótica generalizada compartilhada através das lentes de quem está on-line, quase como um delírio, uma alteração da realidade. Dá-se conta de uma ilusão quando esta é compartilhada? Essa pode ser mais uma empreitada do sujeito que se debruça na tentativa de garantir uma utópica felicidade? Onde estaria o mal-estar do qual Freud fala, nessa civilização engendrada pela internet e desconectada com as pequenas diferenças?

Parto do princípio de que a sociedade caminha por polarizações, sobretudo no que concerne a visão de saúde-doença. E essa ideia parece dizer a respeito de nomear tudo aquilo que traz mal-estar. Para além de uma necessidade benéfica, percebo que há uma predileção nociva em nomear as dores, bem como suas manifestações e o tempo delas, a qualquer custo.

Se analisarmos o que está atravessando o mundo atualmente, podemos entender como essa premissa funciona. Vivenciando o caos de uma pandemia, a sociedade concebeu um nome para a nova realidade que nos atravessa, intitulando de

“novo normal”. Novo normal ou antigo normal? Ou novo anormal? Qual a norma para lidar com o sofrimento, com as vicissitudes?

Suponho que a bússola que dá o norte ou o sul ao sujeito foi perdida na avalanche das incertezas que a pandemia evidenciou. Apesar disso, a incompletude humana já preexistia antes mesmo de um novo (a)normal. Hoje, elas só ficaram escancaradas.

Me parece que a senda escolhida nesse momento pelo sujeito, inserido numa sociedade que promove as urgências do bem-estar, é a tentativa incansável de resgatar essa bússola nomeando o que estava latente garantindo o lugar da certeza. Pergunto-me, ser gente é lá ter certeza de alguma coisa?

Entendo que o mundo online nas redes sociais foi o eleito para colonização, nele é onde Noé atracou sua barca. O que media nossos (des)encontros hoje nesse admirável mundo novo é um aplicativo e o que vemos é através do olhar da câmera, olhar que está no lugar Deus. Podemos dizer que uma tecla está sendo apertada incessantemente cuja função é a de voltar a um estado de prazer mítico outrora fantasiado por nós? Um amigo me pergunta: “Será que esse botão que conduz a um saber último não seria uma tentativa de materializar o objeto a (posso facilmente comparar àquela bola que nossa mãe acabou de comprar mas, antes mesmo de brincarmos, ela perder-se no céu azul), conceituado por Lacan?”.

O programa de felicidade com o qual sonhamos, originado pelo princípio do prazer, elaborado gloriosamente por Freud, necessariamente, não nos garante toda satisfação, no entanto, não abdicamos da busca por ela. Presumo que uma das grandes questões da sociedade está aí: agir em nome dessa completa satisfação, embora fantasiosa, repelindo o desprazer socialmente imposto ou aceitar as dores e vicissitudes que constituem o sujeito. Empreendemos e disseminamos um novo normal para fugirmos do irremediável pois a possibilidade de suportarmos qualquer afeto que fuja do bem-estar é quase zero.

Na tentativa de chegar a uma conclusão, percebo que não há “A” resposta certa que se encaixe dentro de um novo normal, como não existe uma tecla que conduza a vida à totalidade dos 280 caracteres lá do twitter. Ressuscitando Guimarães Rosa e sua ternura com a linguagem, lembro: “a felicidade se acha é em horinhas de descuido”. Findável, limitada, mas não menos prazerosa. A vida também pode ser um devir. Nomear, na tentativa desesperada de domar o que está posto aos nós e aos laços, não vai preencher os buracos na estrada que fazem parte da vida humana. Em última análise, nenhum arranjo alcançará o que está destinado à viagem do sujeito nessa estrada: a condição de ser incompleto.

 

Ariane de Almeida Oliveira

Psicóloga (CRP 03/23595)

Psicanalista em formação