Em ‘montanha russa’ da fome, brasileiros não conseguem ajudar uns aos outros, diz Marcelo Neri

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Com aumento da fome no Brasil, país deve ampliar a escala de programas sociais bem-sucedidos, sugere o diretor da FGV social, Marcelo Neri.

Durante o primeiro semestre, pesquisas sobre o quadro socioeconômico brasileiro confirmaram o que já parecia bastante evidente para os residentes no país: a pobreza cresce, e com ela a insegurança alimentar e a fome.

A pesquisa “Efeitos da pandemia na alimentação e na segurança alimentar no Brasil”, realizada pelo Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça e coordenada pela Universidade Livre de Berlim, sugere que 59,3% dos brasileiros – ou 125,6 milhões de pessoas – não comeram em quantidade e qualidade adequadas desde o começo da pandemia de COVID-19.

Essas estatísticas sombrias são ainda piores do que as divulgadas pela pesquisa “Olhe para a Fome”, divulgada no dia 5 de abril pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar Nutricional, segundo a qual 19 milhões de brasileiros passaram fome no último trimestre de 2020.

Homem acompanhado do seu filho pede ajuda para compra de alimentos em Brasília, 26 de abril de 2021
© AP PHOTO / ERALDO PERES Homem acompanhado do seu filho pede ajuda para compra de alimentos em Brasília, 26 de abril de 2021

Para o diretor da FGV Social, Marcelo Neri, que foi ministro chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e presidente do IPEA, a pandemia agravou uma tendência de aumento da pobreza que vem desde 2014.

“Esse quadro da pandemia foi antecedido por um aumento da pobreza e extrema pobreza pela falta de ajustes no Bolsa Família”, disse Neri à Sputnik Brasil. “As nossas estimativas de segurança alimentar e de extrema pobreza aumentaram 67% de 2014 a 2019.”

Segundo ele, “a pobreza subiu pelo mesmo caminho que ela tinha caído”, isto é, pelo programa Bolsa Família, que sofreu desinvestimento nos últimos anos.

“É uma economia de recursos que é ruim para a pobreza e para a economia como um todo, não faz as rodas da economia girarem”, disse Neri. “Nossos indicativos são que a cada R$ 1,00 que você gasta com o Bolsa Família, a economia gira e você gera R$ 1,78”.

Senhora recebe alimentos doados na comunidade Pará-Pedro, Rio de Janeiro, 8 de maio de 2020 (foto de arquivo)
© AP PHOTO / SILVIA IZQUIERDO Senhora recebe alimentos doados na comunidade Pará-Pedro, Rio de Janeiro, 8 de maio de 2020 (foto de arquivo)

Mesmo que o processo seja de longa data, o quadro mais grave da insegurança alimentar no Brasil é o do início de 2021, acredita Neri.

“Apesar de a pobreza ter dobrado entre agosto e novembro de 2020 […] o pior problema veio no começo desse ano, com as suspensões do auxílio os indicadores de insegurança alimentar e pobreza tiveram um desempenho ainda pior”, disse Neri.

O quadro da pobreza e fome no Brasil é “surpreendente, se considerarmos que o Brasil tem uma oferta de alimentos grande”.

Voluntária cozinha refeições para doação em convento no Rio de Janeiro, 30 de março de 2021
BRUNA PRADO Voluntária cozinha refeições para doação em convento no Rio de Janeiro, 30 de março de 2021

“O Brasil tinha a capacidade de alimentar toda a humanidade, mas enfrentava um problema de fome, o que é um fato inaceitável que reflete a alta desigualdade brasileira”, disse Neri.

Segundo ele, “o Brasil é um país no qual ter pobreza, ter insegurança alimentar, nós estarmos aqui debatendo isso, não deveria acontecer. Mas infelizmente está acontecendo não só na pandemia, mas desde 2014”.

Perante esse quadro, a população se mobiliza em grandes campanhas de doação de alimentos. Ainda que necessárias, muitos consideram um retrocesso o país voltar a depender da caridade para alimentar sua população.

Mulher recebe cesta básica doada pela ONG G10 Favelas, no Capão Redondo, São Paulo, 26 de abril de 2021
© AP PHOTO / ANDRE PENNER Mulher recebe cesta básica doada pela ONG “G10 Favelas”, no Capão Redondo, São Paulo, 26 de abril de 2021

“É importante, mas não deixa de ser um retrocesso”, considerou Neri. “Para 67% dos pobres brasileiros a principal fonte de renda em uma emergência, como a gente está hoje, são os amigos e parentes. Somos uma sociedade muito baseada em solidariedade.”

“Mas o problema é que estamos em uma montanha russa, mas com todos no mesmo carrinho. Então não conseguimos ajudar uns aos outros quando está todo mundo na baixa como, por exemplo, na ausência do auxílio [emergencial]”, disse Neri.

Além disso, as campanhas nem sempre têm o fôlego necessário para atenuar a fome dos brasileiros mais necessitados. “Quando temos uma grande campanha, a população se mobiliza, mas passou a campanha, as doações caem, que foi o que aconteceu nos últimos meses.”

Homem doa refeição a cadeirante em convento no Rio de Janeiro, 30 de março de 2021
© AP PHOTO / BRUNA PRADO Homem doa refeição a cadeirante em convento no Rio de Janeiro, 30 de março de 2021

Apesar do quadro complicado, Neri acredita que o país tem capacidade de reverter esse quadro: “A boa notícia é que nós temos os instrumentos, a má notícia é que muitas vezes a gente se esquece disso”.

Na área rural, é “necessário adotar […] programas de manutenção de preços, programa de merenda escolar, para manter as rodas da área rural funcionando”, notou.

“Mas é nas zonas urbanas que o Brasil dispõe de um amplo acervo de políticas públicas, como o CredAmigo no Nordeste, que são muito boas”, disse Neri. “Acho que às vezes o erro do Brasil não é conseguir desenhar uma boa política, mas sim conseguir dar escala às boas políticas públicas.”

“Então a gente vai precisar ter maturidade para fazer boas escolhas. Dá para ser otimista condicional: se fizermos as escolhas certas, temos capacidade. Agora eu não acredito que nós necessariamente vamos fazer a coisa certa, infelizmente”, concluiu o pesquisador.

Fonte: Sputnik Brasil

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