Por Júlio Miragaya para o Jornal Brasília Capital

Foto Laurent Blevennec/French presidency

Resultados das eleições nos dois países desmentem a precipitada conclusão de que a Europa rumava celeremente para a extrema-direital

O resultado das eições na Grã-Bretanha e na França, na última semana, desmentiram a precipitada conclusão de que a Europa rumava celeremente para a extrema-direita. Incorporando o balanço das eleições para o Parlamento Europeu, os resultados apontam conclusões diversas:crescimento da extrema-direita? Crise da direita tradicional? Oxigenação na “mofada” esquerda europeia? Ou seria apenas “mais do mesmo”?

Na Grã-Bretanha, ao contrário da conclusão de entusiásticos defensoresda socialdemocracia europeia, o que ocorreu de fato foi uma acachapante derrota do Partido Conservador (Tories), a maior desde sua fundação, em 1834, e não propriamente uma derrota da direita britânica e muito menosuma grande vitória do Partido Trabalhista (Labour).

Como assim, se o Partido Trabalhista elegeu 412 deputados (63% das 650 cadeiras da Câmara Baixa)? Sim, mas obteve apenas 33,7% dos votos(9,69 milhões), 600 mil a menos que em 2019 e 3,2 milhões que em 2017, quando, sob Jeremy Corbyn, de sua ala esquerda, obteve 40% dos votos, mas conquistou somente 262 cadeiras.

Tal distorção se dá em razão do peculiar sistema eleitoral britânico, o distrital puro – a mais cabal expressão da ausência de proporcionalidade. Não se trata de uma eleição nacional, mas de 650 micro eleições. O que permitiu tamanha vantagem do Labour foi uma enorme dispersão dos votos entre os três partidos da direita. E no sistema distrital puro isso é fatal.

Em relação às eleições de 2019, o Partido Conservador perdeu mais da metade do eleitorado (de 14 milhões para 6,8 milhões). Esses milhões de votos “perdidos” pelos tories não foram para o Partido Trabalhista, mas migraram para a abstenção (de 32,1% para 40,1% ou 3,6 milhões de eleitores a mais que em 2019), para o Partido Liberal-Democrata e, principalmente, para o eurocético e anti-imigração Reform UK, próximo à extrema-direita europeia, que saltou de 640 mil (2%) para 4,1 milhões de votos (14,3%), e obteve apenas 5 cadeiras (0,8%). Mas, no conjunto, os três partidos de direita obtiveram 50,2% dos votos.

O repúdio aos conservadores decorreu da imensa insatisfação com seus governos desde 2010, quando venceu com David Cameron. Nesses 14 anos,imprimiram um programa marcado pela austeridade fiscal, com forte redução dos gastos sociais, atingindo particularmente o National Health Service (NHS), o seu consagrado sistema de saúde público.

Prometeram o paraíso com o Brexit e o que ocorreu foi um pífio crescimento do PIB (média de 1% ao ano); elevada inflação (10,5% em 2022); salários estagnados e crescimento do trabalho precário, especialmente entre os 10 milhões de imigrantes (15% da população).

E o que será o governo Stamer? Repudiará a política de austeridade dosconservadores ou repetirá o que fizeram os últimos governos trabalhistas de Tony Blair e Gordon Brown (1997/2010), escancaradamente liberais?Jeremy Corbyn, expulso do Labour por suas críticas a Israel, afirmou que o manifesto de Stamer, após sua vitória, vai pelo segundo caminho. Se o fizer, provavelmente nas próximas eleições a direita se reunificará e imporá forte derrota aos trabalhistas.

Já na França, após a vitória na 1ª volta, a extrema-direita tomou a virada neste domingo. O “voto útil” fulminou o prognóstico do Reagrupamento Nacional (RN) de Le Pen fazer até 260 deputados, elegendoapenas 126. Também o presidente Macron foi derrotado, pois sua ampla coligação conquistou 158 cadeiras, cerca de 100 a menos que em 2022. O vencedor foi a Nova Frente Popular (NFP), que elegeu 180 deputados, que,somados a outros 12 de esquerda, forma a maior bancada no Palácio Bourbon.

A Nova Frente Popular foi o instrumento utilizado pela juventude e pela classe trabalhadora francesa para combater não só o RN, mas também Macron. E é hegemonizada pelo França Insubmissa (FI), de Mélenchon, após a esquerda francesa por mais de um século ser dominada pelo PS e PCF

E qual o segredo do “sucesso” da FI? Fazer o que o PS e o PCF deixaram de fazer: a defesa das históricas reivindicações da classe trabalhadora: salário, emprego, aposentadoria, serviços públicos, direitos dos imigrantes etc.

O desfecho ainda é incerto, pois nenhuma das forças obteve a maioria de 289 deputados na Assembleia Nacional Francesa. Mas a NFP não pode cair na armadilha de uma possível “unidade republicana” com Macron. Afinal, direita e extrema-direita não são como água e vinho.

Por exemplo, o governo de Giorgia Meloni, do “Irmãos de Itália”, também de extrema-direita, difere de Macron apenas por sua agenda reacionária, pois sua política de rígida austeridade fiscal e de desmonte da proteção social é idêntica, aliás, dentro do determinado pelo capital financeiro para todos os matizes ideológicos, inclusive o socialdemocrata.

Júlio Miragaya é Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia