Militares tomam o poder em Mianmar

Foto: Reprodução DW

Militares de Mianmar tomaram o poder nesta segunda-feira (01/02) num golpe contra o governo democraticamente eleito de Aung San Suu Kyi, vencedora do Nobel da Paz, que foi detida juntamente com outros líderes do partido no poder no país asiático. A União Europeia (UE), os Estados Unidos, a ONU e outros países condenaram o golpe militar.

O Exército, que afirmou ter efetuado as detenções em resposta a uma suposta fraude eleitoral, impôs estado de emergência por um ano e entregou o poder ao chefe das Forças Armadas, Min Aung Hlaing. Os militares evocaram os poderes que lhes são atribuídos pela Constituição, redigida pelo Exército, permitindo-lhes assumir o controle do país em caso de emergência nacional.

O golpe mina anos de esforços apoiados pelo Ocidente para estabelecer a democracia em Mianmar, onde a vizinha China também exerce grande influência.

Os militares tomaram o poder horas antes da primeira sessão parlamentar desde a vitória esmagadora da Liga Nacional pela Democracia (NLD, na sigla em inglês) nas eleições gerais de 8 de novembro passado, consideradas um referendo sobre o governo democrático de Suu Kyi. Ela ocupava o cargo de conselheira de Estado, semelhante ao de primeiro-ministro, desde 2016.

As conexões de telefone e internet na capital, Naypyitaw, e em Yangon, centro comercial do país, foram interrompidas, e a televisão estatal saiu do ar depois de Suu Kyi, o presidente Win Myint e outros líderes da NLD terem sido detidos nas primeiras horas da manhã.

Após o golpe, forças de segurança bloquearam ruas e passaram a vigiar as residências de parlamentares na capital, proibindo os moradores de deixarem suas casas, disseram legisladores.

Tensões pós-eleição

As detenções e a tomada de poder pelos militares ocorreram após tensão crescente entre o governo civil e os militares devido à eleição de novembro, na qual o partido de Suu Kyi obteve 83% dos votos. Foi a segunda eleição no país desde que uma junta militar concordou em compartilhar o poder, em 2011, após décadas de ditadura militar.

Os militares denunciaram irregularidades no pleito, mas a Comissão Eleitoral de Mianmar negou que tenha havido qualquer fraude eleitoral.

Numa página verificada da NLD no Facebook foi publicado um comunicado supostamente escrito em antecipação ao golpe, citando Suu Kyi dizendo que ações do Exército colocariam Mianmar “de volta sob uma ditadura”.

“Exorto as pessoas a não aceitarem isto, a responderem e a protestarem de todo coração contra o golpe dos militares”, cita o texto. A agência de notícias Reuters afirma que não conseguiu confirmar a veracidade do comunicado com a NLD.

A líder civil de Mianmar Aung San Suu Kyi
A líder civil de Mianmar Aung San Suu Kyi, vencedora do Nobel da Paz em 1991

Apoiadores dos militares celebraram o golpe, desfilando por Yangon em camionetes e agitando bandeiras nacionais, enquanto ativistas pró-democracia manifestaram indignação.

“O nosso país era um pássaro que estava apenas a aprender a voar. Agora o Exército cortou as nossas asas”, disse o ativista estudantil Si Thu Tun.

Eleitores da NLD também repudiaram o ocorrido. “A NLD é o governo em que votamos. Se estão infelizes com o resultado, podem convocar outra eleição. Um golpe de Estado não é aceitável”, disse uma mulher que se recusou a ser identificada, cujo marido trabalha para os militares.

Condenação internacional

A União Europeia condenou “firmemente” o golpe militar em Mianmar e exigiu a libertação imediata dos “ilegalmente detidos”. Em postagem no Twitter, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, afirmou ainda que “o desfecho das eleições deve ser respeitado” e que “o processo democrático precisa ser restaurado”.

Num comunicado, o Alto Representante da UE para a Política Externa, Josep Borrell, afirma que o golpe constitui “uma clara violação da Constituição do país e uma tentativa dos militares de reverter a vontade do povo de Mianmar”.

“As ações de hoje trazem de volta memórias dolorosas de décadas passadas. A democracia deve prevalecer. Estamos em contato com os nossos parceiros internacionais nesta questão urgente para assegurar uma resposta coordenada”, conclui.

Em comunicado, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, advertiu que “os Estados Unidos opõem-se a qualquer tentativa de alterar os resultados das recentes eleições ou de impedir a transição democrática em Mianmar e agirão contra os responsáveis se esses passos [tomada de poder e detenções] não forem revertidos”.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, também condenou o golpe e a prisão de Suu Kyi. “O voto do povo deve ser respeitado, e os líderes civis, libertados”, tuitou.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, considerou as ações dos militares um “rude golpe” contra as reformas democráticas em Mianmar.

A China, que se opõe regularmente a uma intervenção da ONU em Mianmar, apelou a todas as partes para “resolverem as diferenças”. “A China é um vizinho amigável e espera que as várias partes em Mianmar resolvam adequadamente as suas divergências sob o quadro constitucional e legal para proteger a estabilidade política e social”, afirmou o porta-voz do Ministério do Exterior chinês, Wang Wenbin.

 

Fonte: Deutsche Welle (DW)