Novo livro de ex-mulher de Paulinho Boca de Cantor, conta detalhes sobre os Novos Baianos

(crédito: Pipa Distribuidora/Divulgação)

Um dos grupos de maior importância na história da música popular brasileira, os Novos Baianos, tem a obra, o estilo de vida e o espírito libertário exaltado ultimamente em diferentes mídias. Documentários produzidos para cinema e televisão, regravação das músicas e lançamento de livros fazem parte deste pacote. A morte de Moraes Moreira, um dos fundadores, em abril de 2020, teve também uma grande repercussão e culminou com a homenagem prestada pelo filho Davi Moraes em disco.

O tributo mais recente ao legado dos Novos Baianos tem a assinatura de Marília Aguiar, ex-mulher de Paulinho Boca de Cantor, um dos fundadores da banda, com um livro de memória, intitulado Caí na estrada com os Novos Baianos, no qual relata os anos que viveu com os músicos, além de retratar uma época de grandes transformações — mesmo no período dos anos de chumbo da ditadura militar. A obra com 240 páginas, lançamento da Editora Agir, tem posfácio de Paulinho Boca de Cantor e texto de orelha de Cao Hamburguer.

Com a sensibilidade do olhar feminino, a autora rememora a vida comunitária no Cantinho do Vovô (sítio em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro) local de memoráveis partidas de futebol e festas extravagantes e onde surgiram alguns dos grandes sucessos dos Novos Baianos. Ela fala também das estratégias inventadas para conseguir dinheiro, das perseguições que a trupe sofria da polícia, das incontáveis trocas de endereço, dos inspiradores encontros com o genial João Gilberto.

A paulista Marília Aguiar estudou jornalismo na Universidade de São Paulo (USP), mas abandonou o curso para acompanhar a trupe dos Novos Baianos, depois de conhecer Moraes Moreira, Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor em dezembro de 1969, em São Paulo, na festa de lançamento do filme A mulher de todos, do cineasta Rogério Sganzerla. Com os músicos, participou de uma viagem repleta de aventuras, dentro de uma Kombi, com o tanque furado, rumo a Salvador. A partir dali, ela veria sua vida mudar de forma definitiva. Atualmente ela é produtora de espetáculos.

No prefácio de Caí na estrada com Os Novos Baianos, Zélia Duncan escreveu: “Este livro permite olhar, pelo buraco da fechadura, um pedaço da história dessas pessoas e artistas, que vieram a fazer tanto pela música brasileira. É um jeito de mergulhar no espírito hippie, com tudo o que isso pode significar. As histórias de Marília nos traz de volta o tempo despojado que viveram, da coragem de querer o instante, de não valorizar bens materiais e aprender a dividir. Ninguém está falando em paraíso, mas da tentativa real de abrir para experiências novas; e entre uma coisa e outra, música sem parar”.

» Entrevista// Marília Aguiar

O que levou uma estudante da USP a se encantar com três cabeludos, logo após conhecê-los?
Eu sempre fui inquieta, insubmissa, fascinada por pessoas e acontecimentos inusitados. Antes, e também no tempo da USP, meus amigos próximos eram atores, artistas plásticos, gente criativa e interessante. Acho que foi uma consequência natural me encantar com os cabeludos diferentões.

Você já estava com eles, quando foram morar no apartamento no bairro de Botafogo?
Sim, fui morar com eles em janeiro de 1970, primeiro no Hotel Danúbio e depois na casa do Chora Menino, em São Paulo. Só fomos para a cobertura de Botafogo, que não era duplex, no comecinho de 1971.

O que guardou dos encontros dos Novos Baianos com João Gilberto, que deu origem ao álbum clássico Acabou Chorare?

A importância do João Gilberto para a música dos Novos Baianos é amplamente conhecida. Mas vai além disso. Os encontros com ele eram uma delícia! Muito som, conhecimento e novos conceitos. Ele ensinou a importância da respiração, seja para cantar, alcançando divisões de maneira que não modifiquem o sentido das letras, ou a respiração mais compassada, quando precisamos afastar qualquer medo. Mostrou como transmitir amor e segurança para as crianças, com o toque das mãos e trouxe para o apartamento a Autobiografia de um iogue, livro de Paramahansa Yogananda, que foi fundamental para muitos de nós.

omo era para uma garota da classe média paulistana encarar a vida comunitária, num clima hippie, com uso de drogas e outras loucuras, no sítio Cantinho do Vovô?
Antes de morar com os Novos Baianos eu já havia rompido com alguns padrões da minha família paulistana. Nessa nova experiência, de uma vida comunitária, dividir espaço, roupas, dinheiro, comida e mesmo coisas imateriais foi espontâneo e prazeroso. Eu me sentia feliz e os acontecimentos de cada dia me absorviam completamente.

Havia uma relação de amizade entre você e Baby Consuelo e Marilhona, mulher de Moraes Moreira?
Havia entre nós três, as mulheres do grupo, muita amizade, diferenças subjetivas e grande cumplicidade.

Qual era a sua contribuição no dia a dia da comunidade?
Não tínhamos uma divisão formal de tarefas. Cada um fazia as coisas que queria fazer, quando achava necessário. Eu era uma das pessoas do grupo que mais cozinhava e fui responsável por induzir todos a serem vegetarianos.

Os três filhos com Paulinho Boca de Cantor foram concebidos naquela época?
Sim. Maria nasceu na época do apartamento de Botafogo, Gil quando estávamos no sítio Cantinho do Vovô e Beto em São Paulo, no último ano em que moramos todos juntos.

Depois que o grupo se desfez, o que andou fazendo?
Logo depois, trabalhei um tempo para a extinta Embrafilme, na divulgação de filmes nacionais. Em dezembro de 1984, fiz meu primeiro trabalho como produtora, no espetáculo da cantora Simone, no Palace, em São Paulo, e não parei mais. Produzi shows, eventos e projetos culturais gratificantes, com artistas maravilhosos. Fiquei muitos anos exclusivamente com a Simone, alguns com o Capital Inicial e com Ratos de Porão. Idealizei e fui a produtora do disco do Osmar Macedo, um dos inventores do Trio Elétrico, trabalhei em vários carnavais de Salvador, na inauguração da árvore de Natal da Lagoa do Rio e em algumas edições do Projeto Mestres Navegantes.

Quando o Caí na estrada com os Novos Baianos foi escrito?
Eu nunca tive a pretensão de escrever um livro. Foi durante uma turnê que fiz em 2017, com Simone e Zélia Duncan, que essa ideia surgiu. Como ficávamos muitas horas nos hotéis, teatros e aeroportos, às vezes eu contava algumas histórias que tinha vivido com os Novos Baianos. Elas se divertiam. Foi a Zélia que insistiu para que eu escrevesse sobre esse tempo, mas demorei bastante até mandar as primeiras histórias para ela ler, já em 2019. E foi ela quem enviou meus textos para a Editora Agir.

O conteúdo do livro é fruto de algo reunido em um, digamos, diário, ou tudo foi armazenado na memória?
Nunca tive um diário ou algo parecido. Aqueles anos foram tão intensos que os detalhes permanecem naturalmente vivos na minha memória. Lembro-me de cada casa em que moramos, das pessoas, das conversas, das visitas (nem sempre desejadas!), das viagens, sensações, das músicas sendo criadas e muito mais.

Que relação tem atualmente com os Novos Baianos?
A gente se vê pouco, pois cada um tem suas prioridades e a vida nos levou para diferentes caminhos. Quando nos falamos, e nos nossos encontros, o amor transborda. Estive em todos os shows que fizeram, na volta deles, em 1997, e nessa última. É sempre uma delícia estar junto com todos. Eu conversava e ria muito com o Moreira, sempre fomos bons amigos. Com Paulinho Boca tenho uma relação familiar amorosa, que fica clara no posfácio que ele escreveu para meu livro. Galvão mandou um texto lindo, Pepeu ainda é o meu irmãozinho querido e com a Baby continuo tendo uma relação de cumplicidade, respeito e muito amor.

Na sua visão, com a morte de Moraes Moreira, haverá continuidade do grupo?
Acredito que, se eles quiserem continuar, existem condições técnicas e artísticas para isso. Os Gomes (Pepeu, Jorginho e Didi) são fantásticos, Boca e Baby estão cantando muito. Os Novos Baianos sobreviveram antes, quando Moraes deixou o grupo em 1975. Claro que ele faz falta, mas não impede a continuidade. Sei que cada um deles também está preparando novos trabalhos individuais. E ainda não há uma previsão para a volta de shows presenciais por aqui, nesses tempos inseguros de pandemia. Fico torcendo para que aconteça o melhor pra todos.

Em que o Brasil de agora se assemelha com o da época da ditadura militar, quando os Novos Baianos eram perseguidos?
Estamos vivendo um tempo semelhante aos anos 1970 em muitos aspectos. Repleto de preconceitos, autoritarismo, violência, desigualdade social e falta de respeito com a vida das pessoas. Infelizmente. Mas acredito que vamos superar esses horrores, da mesma maneira que nós (e muitos outros daquela geração) conseguimos, quando insistimos em viver com liberdade, igualdade e arte. O amor é uma força maior que o ódio.

» Trecho

“Eu e Marilinha fomos casados por 20 anos e vivemos todos os momentos da trajetória dos Novos Baianos juntos. Tivemos três filhos (Maria, Gil e Betão) e ninguém melhor para contar essas histórias com riqueza de detalhes e com emoção de quem viveu intensamente cada segundo, dos bons e dos difíceis dessa loucura setentista.

Quando nos encontramos, numa noite da Pauliceia Desvairada, numa festa em uma boate da moda, começamos a namorar, e a vida dela nunca mais foi a mesma. Ela foi fundamental para a sobrevivência dos Novos Baianos na louca e conturbada São Paulo na época de chumbo da ditadura militar. Nos ajudou a sobreviver de todas as maneiras, até financeiramente. Eu me lembro de Marília descolando almoço e janta na cantina do Giovanni Bruno, um dos melhores restaurantes paulistanos, que ela frequentava antes de nos conhecer. Enfim, Marília entrou de cabeça, corpo e alma na vida dos Novos Baianos e segurou a peteca até o final do grupo em 1979. Isso lhe custou caro.

Foi deserdada pela família, mas nunca se abateu, continuou firme até o final como uma Nova Baiana, abraçando nossa causa e incorporando nossa filosofia de vida. Portanto, Marília merece nossa gratidão e respeito. Todos do grupo tinham por ela admiração e amor, e até os dias de hoje ela continua sendo a ‘Marilinha dos Novos Baianos’”.

Posfácio de Paulinho Boca de Cantor

Fonte: Correio Braziliense