O destaque de mulheres indígenas na COP26

"Muitos se sentem incomodados, como se não devêssemos estar aqui", diz Txai Suruí, que discursou na abertura da COP26

Aos 24 anos, Txai Suruí contava que seu discurso na abertura da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, não agradaria ao governo brasileiro. Convidada em cima da hora para falar a diplomatas de mais de 190 países, ela citou o assassinato de Ari Uru-Eu-Wau-Wau, seu amigo de infância e guardião indígena morto em 2020 por proteger a natureza.

O impacto da mensagem ecoou dentro e fora da COP26, que segue até esta sexta-feira (12/11). Criticada pelo presidente Jair Bolsonaro, que não foi a Glasgow, ela tem recebido ofensas racistas e ameaças na internet.

Logo depois que desceu da tribuna para dar uma entrevista, um homem que usava crachá da delegação oficial do governo tentou interrompê-la e disse, num tom nada amigável, que ela não deveria falar mal do Brasil.

“Era intimidação. Foi muito desconfortável. Eles não querem trazer a realidade do que está acontecendo, eles querem fingir que não existe”, comenta Txai à DW Brasil sobre a postura do governo brasileiro na conferência, citando as invasões aos territórios indígenas e o desmatamento na Amazônia.

Em sua segunda participação numa COP, Txai está convencida de que as negociações para limitar o aquecimento da Terra a até 1,5 ºC, meta estabelecida pelo Acordo de Paris em 2015, não podem seguir em frente sem os indígenas.

“Eu quis falar sobre a importância de nós estarmos no centro da discussão. Somos nós que estamos fazendo o trabalho de luta, de preservação da natureza, da floresta. E também estamos sentindo as consequências das mudanças climáticas”, justifica.

Ela faz parte da maior delegação indígena já vista numa COP. São mais de 40 que deixaram suas aldeias e cidades para acompanhar a discussão, e a maioria são mulheres.

Embora não se sentem à mesa para tomar as decisões que sairão no aguardado acordo de Glasgow, elas têm participado de reuniões paralelas – por mais que não haja diálogo com o governo brasileiro.

Uma dessas conversas foi com o ministro holandês de Comércio Exterior e Cooperação Internacional, Tom De Bruijn. “Não basta só dizer que se preocupa com os direitos e terras indígenas e continuar comprando produtos que são derivados do desmatamento da floresta, ou que vêm da terra indígena. Eles também têm que ter esse compromisso”, comenta Txai.

Incômodo velado

Juma Xipaia nota que a participação dos povos indígenas na COP26 desperta atenção e um certo incômodo. “Estamos aqui não por conta dos organizadores. Nós nos fizemos presentes por meio da nossa articulação”, afirma à DW Brasil. “É visível, muitos se sentem incomodados, como se não devêssemos estar aqui.”

Ela se impressiona ao ver como as florestas são consideradas no debate diplomático como fundamentais na equação para conter as mudanças climáticas, ouve sobre a criação de fundos internacionais para a sua conservação, mas lamenta o fato de seus moradores não fazerem parte do processo.

“Não fomos incluídos. Nós viemos. E queremos que nos respeitem. Aqui se fala muito de floresta, mas não consideram os povos que lá vivem, não fazem a consulta, não chamam para o diálogo. Só existe floresta porque existem os povos que estão lá, defendendo, semeando”, argumenta Juma.

Segundo o procedimento das COPs, organizadas pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), as delegações oficiais são formadas por diplomatas e membros de governo. Durante as duas semanas de encontro, no entanto, participantes da sociedade civil, empresas e organizações promovem debates em eventos paralelos.

Uma longa batalha

Por tentar proteger o modo de vida de seu povo diante da construção da usina de Belo Monte, no Pará, Juma Xipaia quase morreu. Teve a casa invadida, sofreu um atentado, recebeu ameaças e se refugiou por dois anos fora do país. No meio desse cenário, ela sonha em finalizar o curso de Medicina na Universidade Federal do Pará, em Altamira, que resolveu trancar momentaneamente.

“Belo Monte nunca vai ser um ato consumado. Continua causando impactos que não são considerados: a destruição da nossa cultura, divisão dos povos, doenças que surgiram com comidas industrializadas que foram mandadas, a morte de jovens em Altamira, violência contra mulheres e crianças”, diz sobre a instalação da usina.

A presença de Juma e de outras mulheres indígenas na COP26 chamou a atenção também de Leonardo DiCaprio, ator e ambientalista que esteve na conferência. Numa conversa programada para durar 20 minutos – mas que se estendeu por mais de duas horas – Juma explicou a DiCaprio os detalhes do risco ao qual estão expostos na Amazônia.

“Foi uma grande surpresa. Ele se mostrou preocupado e empenhado em não apenas apoiar, mas entender o que está acontecendo”, comentou Juma.

Procurada pela imprensa de todo o mundo para conceder entrevistas, ela diz saber lidar com esse assédio. “Eu sei quem eu sou, eu sei de onde venho, qual é minha luta e minha missão. Não estamos aqui ‘enfeitados’ pra gringo ver, não é um folclore. Não vim a passeio. O futuro do meu povo não é negociável”, responde.

Ao lado de outras lideranças, Juma busca ouvir de outros representantes de países na COP26 que seus governos irão agir para conservar a floresta e respeitar os indígenas. “É preciso que eles saibam também que está acontecendo um genocídio no Brasil”, pontua.

“Ninguém mais vai falar por nós”

Depois de mais de uma semana em Glasgow, Alessandra Munduruku está em quarentena em Santarém, Pará, antes de retornar a sua aldeia. “Não quero levar doença nenhuma para meu povo”, justifica.

A agenda de encontros que teve na conferência foi intensa, ao lado de outros lideres da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). “A gente saiu de tão longe pra chegar lá. A gente não quer mais deixar empresas e governo falarem por nós, eles tentam negociar sem a nossa presença, mas querem tirar foto dizendo que ‘estão com indígenas'”, critica.

Aos pontos em discussão na COP26, representantes da Apib tentam adicionar outros que, segundo avaliam, são vitais para que o Acordo de Paris seja cumprido.

“Se o mundo todo está preocupado com o meio ambiente tem que ter demarcação, respeito aos direitos indígenas, expulsão dos invasores dos nossos territórios e respeito ao protocolo de consulta. Para o mundo respirar o ar puro, tem que respeitar quem protege as florestas”, diz Alessandra.

Segundo ela, a presença indígena na reunião climática seria importante ainda para “desmascarar” o discurso de representantes do governo. “Vimos os governos do Mato Grosso e do Pará pedindo dinheiro pra proteger a Amazônia. Mas eles querem construir a Ferrogrão, querem mais soja”, critica. “O Helder Barbalho [governador do Pará] fala que respeita o meio ambiente, mas criou uma lei para ter o Dia do Garimpeiro.”

Segundo o Diário Oficial do estado do Pará de 27 de outubro, o Dia do Garimpeiro passa a ser comemorado todo dia 11 de dezembro. A lei foi sancionada em meio à maior onda de invasões a terras indígenas no Pará e Amazonas para exploração ilegal do ouro, que tem contaminado indígenas e degradado a floresta.

Hoje uma voz importante entre o povo Munduruku, Alessandra e outras lideranças femininas ganharam espaço pouco a pouco entre os chefes tradicionais. “Hoje nós temos apoio, os caciques falam que nós somos mulheres de coragem. Mas tivemos que brigar para receber esse respeito. Se as mulheres e os homens se respeitarem e se unirem, a luta fica mais forte”, diz.

Fonte: Deutsche Welle (DW)