Tributo a Moraes Moreira. Há um ano o artista deixou de ‘Balançar o chão da Praça’ e de gritar: ‘Chame, chame, chame, chame gente!’

Foto: Reprodução/ Hedflow

Por Taciano Lemos

Aos 72 anos de idade, quando ainda dormia, na madrugada de 13 de abril de 2020, em sua casa no Rio de Janeiro, Moraes Moreira foi chamado para compor, cantar e tocar músicas no Céu.

Se já há um ano não pode mais balançar o chão da praça em Salvador com a sua voz e a sua guitarra, deve estar a balançar as nuvens do Céu, tendo como plateia e acompanhantes santos, anjos e arcanjos. Afinal, resistir ao seu ritmo, quem há? Ninguém, seja nós na Terra ou anjos nos Céus.

Se os santos, anjos e arcanjos hoje não resistem as suas canções, se sacudindo lá em cima pra lá e pra cá —eu tenho certeza disso—, não era eu, um simples mortal, quando ainda garoto, adolescente ou já adulto, que conseguiria resistir. Impossível não acompanhá-lo no trio elétrico pelas avenidas, ruas, praças, ladeiras e becos da Cidade da Bahia (crédito para Jorge, o Amado, que assim se referia carinhosamente à querida e mágica Salvador).

Imagine você se algum baiano teria forças, mesmo que quisesse, para resistir e não sair atrás do trio elétrico com Moraes Moreira, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor. Como resistir aos Novos Baianos? Nunquinha! Era ajeitar a mortalha —que era a fantasia antes da invenção do abadá—, pegar um chapéu de palha para tentar se proteger do sol do verão da Bahia, e ir atrás do trio elétrico dos Novos Baianos. Afinal, só não vai atrás do trio elétrico quem já morreu.

Sim, tenho saudades, muitas saudades, dos meus Carnavais nas ruas, avenidas, ladeiras, becos e praias da Bahia. Isso da quinta-feira anterior ao início do Carnaval, que era naquela época dos anos 70, 80 e 90, o dia da abertura oficial da folia de Momo. Na noite da quinta-feira o Rei Momo recebia as chaves da cidade, normalmente das mãos do prefeito, e aí…o pau quebrava no mesmo momento. Trios, charangas, blocos, o cacete a quatro, atendiam às ordens do Rei Momo. Alegria geral, Carnaval até a manhã da quarta-feira de cinzas. E eu? Dentro dessa zorra toda. De quinta à noite, sexta, sábado, domingo, segunda, terça, madrugada de quarta e na maioria das vezes até a manhã do dia de cinzas.

Durante os dias de Carnaval ir em casa? Só para tirar uma soneca, avisar a mãe que estava vivo e bem, dar um mergulho no mar azul e verde da Bahia para recarregar as energias, ‘traçar’ uma feijoada ou um sarapatel, ou um gostoso cozido com pirão, feitos pela Dona Lygia —a minha mãe— e voltar pro furdunço. Voltar com a proteção de todos os santos e Orixás da Bahia e, também, da reza e mentalização positiva da Dona Lygia que ficava com o coração na mão, agoniado, pelo desaparecimento do seu filho caçula na multidão do Centro de Salvador. E tome balançar o chão da praça.

Salve Moraes Moreira! Salve o Carnaval da Bahia!

*Taciano Lemos é jornalista baiano nascido em Itiuba e editor do blog Gama Livre em Brasilia

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