Vietnã: Os mortíferos agentes coloridos

Publicado estudo sobre o uso militar de herbicidas pelos EUA durante a guerra do Vietnã

por Oficina de Informações [*]

Algumas das áreas em que há registos do uso dos agentes coloridos.Poucos meses antes de o presidente norte-americano, George W. Bush, anunciar o início do ataque militar ao Iraque sob a alegação de que Saddam Hussein mantinha escondido um suposto arsenal de armas de destruição em massa (entre elas, um avião não pilotado capaz de aspergir produtos químicos ou biológicos), chegava à redação da revista britânica Nature um estudo com dados sinistros sobre uma guerra sinistra ocorrida há mais de quarenta anos.

Os americanos sabem do que falam quando se trata dos efeitos letais de armas químicas. Já foram campeões de seu uso. No Vietnã, usaram-nas fartamente. Mais do que se imaginava, como mostra o estudo liderado por Jeanne Mager Stellman, da Universidade de Colúmbia, em Nova York, publicado pela Nature.

A guerra do Vietnã foi um dos principais conflitos militares desde 1945. Ao final da Segunda Guerra Mundial, os vietnamitas levantaram-se contra a ocupação francesa e conseguiram, finalmente, derrotar os colonizadores na batalha de Diem Bien Phu, em 1954. A paz foi ratificada por uma conferência realizada em Genebra, na Suíça, onde, por pressão norte-americana, o Vietnã foi dividido em dois, e sua reunificação seria decidida por um plebiscito marcado para daí a dois anos. Contra a evidência do apoio popular à reunificação, os norte-americanos patrocinaram um golpe militar no país, que rasgou as determinações daquela conferência e foi o estopim de um levante armado. A pretexto de conter a expansão do Vietnã do Norte, os americanos passaram a enviar “conselheiros militares” ao Vietnã do Sul e, desde o começo da década de 1960, passaram a envolver-se na guerra, para a qual chegaram a enviar mais de 500 mil soldados, até 1973, quando se retiraram oficialmente do país, embora continuassem a monitorar as forças sul-vietnamitas, até a derrota final em 30 de abril de 1975.

O estudo publicado pela Nature revela que o volume de armas químicas despejadas sobre o Vietnã e seus vizinhos foi maior do que até agora se admitia. Stellman e sua equipe mostraram que, de 1961 a 1972, as forças militares dos Estados Unidos despejaram sobre o Vietnã cerca de 77 milhões de litros de herbicidas com o objetivo militar de desfolhar florestas e manguezais e localizar focos de guerrilheiros, limpar as cercanias de instalações militares e destruir plantações do “inimigo” como uma tática para diminuir seu suprimento de alimentos. Os herbicidas usados tinham composições variadas e foram apelidados pela cor da banda de identificação pintada nos barris de armazenagem, com capacidade para 208 litros. Foram despejados mais de 370 mil barris. A mais famosa dessas armas químicas foi o Agente Laranja. Mas havia o Azul, o Branco, o Rosa, o Verde e o Púrpura – todos eles aspergidos por aviões ou helicópteros, em cerca de 10 mil missões, sobre uma área total de 2.631.297 hectares atingindo, além do território vietnamita, também áreas dos vizinhos Camboja e Laos. Molharam o terreno, as plantações, os animais domésticos, os rios, as casas e as roupas no varal, de cerca de três mil vilas. Atingiram também a pele, os cabelos, a roupa e foram respirados por dois a quatro milhões de pessoas. E cerca de 65% da área atingida pelas nuvens dos herbicidas recebeu uma substância conhecida como TCDD ( 2,3,7,8-tetraclorodibenzo-p-dioxina ), banida dos Estados Unidos para uso doméstico em abril de 1970, devido a evidências de que provocava câncer.

Já em 1970 o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, por orientação do Congresso, solicitou à Academia Nacional de Ciência um estudo sobre os danos ecológicos e fisiológicos provocados pelos desfolhantes químicos. O estudo, conhecido como NAS-1974, baseou-se em dados cronológicos do arquivo militar HERBS, onde estavam registradas as coordenadas de padrão de vôo das missões de aspersão sobre território vietnamita, efetuadas pela Força Aérea norte-americana entre agosto de 1965 e dezembro de 1971, e das missões semelhantes levadas a cabo por helicópteros do Exército norte-americano desde 1968. A esses dados, o Departamento de Defesa acrescentou, em 1985, informações de outro arquivo, o Services-HERBS, com registros de fontes adicionais. Mas a taxa de erro do HERBS ainda era alta, cerca de 10%, resultante de deficiências de transcrição na entrada de dados e no registro feito pelos próprios pilotos. O estudo de Stellman e sua equipe resultou do esforço para corrigir esses erros. Em sua investigação, descobriram dados adicionais arquivados, e que até então não haviam sido considerados. A recuperação desses dados poderá levar a estudos epidemiológicos e ambientais sobre os efeitos de uso em larga escala de herbicidas, mais completos do que os realizados até hoje.

O uso dessas armas químicas já era contestado em 1963. Mas naquela época, como hoje, os norte-americanos deixaram de dizer a verdade a seu respeito, com a cumplicidade de alguns setores da imprensa, que mantêm a tradição nefasta de mentir para proteger ações militares.

Isso ficou evidente na polêmica pública que o físico e filósofo Bertrand Russell travou com os editores dos jornais The New York Times , americano, e Times , inglês, em 1963. Contra as alegações daqueles jornalistas, de que os “desfolhantes” atingiam apenas a vegetação, Russell demonstrou que, ao contrário, os efeitos daquelas armas contra vegetais, animais e pessoas já eram conhecidos, e atingiam milhões de vietnamitas, e mesmo soldados americanos eventualmente expostos à ação daqueles líquidos venenosos. Usando dados publicados em maio de 1963, Russell mostrou que, nos Estados Unidos, herbicidas e desfolhantes químicos provocaram, na Califórnia, 1.100 casos de sérias doenças e 150 mortes. O próprio primeiro conselheiro científico do presidente John Kennedy, dr. Jerome Weisner, considerou o uso indiscriminado dessas armas químicas como potencialmente “mais perigoso do que a precipitação radioativa”.

[*] Publicado originalmente em http://www.oficinainforma.com.br/ .