A manipulação sobre a “grande abstenção” nas eleições da Venezuela

Postado em 07/06/2018 17:12 - Atualizado em: 07/06/2018 17:12
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por Eduardo Vasco

Com a contundente e avassaladora vitória de Nicolás Maduro nas eleições presidenciais na Venezuela, mais uma vez os grandes veículos de comunicação internacionais ressoaram o discurso batido da oposição, de que teria havido fraude e que a “grande abstenção” seria um reflexo da rejeição ao presidente reeleito.

Isso já era esperado, tanto da oposição golpista que só pensa em derrubar o governo para entregar o país ao imperialismo, como da imprensa cínica que, há anos, combate diariamente a Revolução Bolivariana com mentiras e calúnias.

Sobre a fraude, estranhamente antecipada pela oposição antes mesmo de a eleição ter sido realizada, não há absolutamente nada que sustente tal teoria. Nenhum dos quase 200 acompanhantes internacionais observou qualquer grave irregularidade no processo eleitoral. Pelo contrário, os órgãos e missões eleitorais (de todos os continentes, menos a Oceania) que estiveram na Venezuela reconheceram a lisura e legitimidade do processo, pedindo para que a comunidade internacional respeite a vontade soberana do povo venezuelano.

Inclusive, como foi o caso do jurista brasileiro Luiz Moreira, em entrevista ao Nocaute, consideraram que o sistema eleitoral construído pela Revolução Bolivariana é um dos mais modernos e confiáveis do mundo.

O eleitor vota no candidato por meio de uma máquina eletrônica, que emite um recibo com os dados inseridos pelo eleitor, que verifica se o candidato escolhido está correto. Em seguida, ele deposita o recibo na urna manual e tem seu dedo pintado para que não possa votar novamente, uma vez que o sistema é biométrico. Portanto, para que não haja fraudes, na hora da apuração e auditoria são verificados os votos computados na máquina eletrônica e na urna física, que devem ser os mesmos. De acordo com o próprio Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA, e cujo Centro Carter acompanha eleições pelo mundo afora, o sistema eleitoral da Venezuela é o mais limpo e avançado do mundo.

Mas como os ataques midiáticos nunca vêm por uma única frente, os jornais da direita afirmam que o índice de abstenção de 53% significa que a maior parte da população é contra o governo. Não citam os diversos fatores que podem ter influenciado na alta taxa de abstencionismo, como: 1) a não obrigatoriedade do voto; 2) o boicote dos principais partidos da oposição, reunidos na MUD; 3) a campanha contra as eleições feita pela maioria dos meios de comunicação nacionais e internacionais; 4) o anúncio antecipado dos EUA e seus aliados latino-americanos e da União Europeia de que não reconheceriam o resultado do pleito e a exigência de adiamento da votação; 5) o chamado à abstenção por parte do clero da Igreja Católica venezuelana, sempre contrária à Revolução Bolivariana; 6) a percepção por parte da população de que, qualquer que fosse o resultado, a crise não seria solucionada; 7) a despolitização de uma parte da sociedade, que não se interessa por política e, como o voto não é obrigatório, preferiu tirar o domingo para fazer outras coisas.

Esses mesmos veículos de imprensa também não dizem que as eleições presidenciais do Chile no ano passado, que elegeram o neoliberal Sebastián Piñera novamente como líder do país, tiveram um índice de 51% de abstenção. Nem que Juan Manuel Santos, o maior fantoche dos EUA na América do Sul, foi reeleito presidente da Colômbia com 52% de abstenção nas eleições de 2014. E muito menos que Donald Trump, que adora aprovar sanções contra a Venezuela e é chefe do bando que desconhece o resultado das eleições venezuelanas, venceu Hillary Clinton com menos votos populares que ela, em um pleito com 44% de abstenção, em 2016.

Um exemplo desses comentaristas que adoram utilizar o duplo padrão, atacar a Venezuela e esconder a realidade de outros países é o colunista da Folha de S. Paulo, Clóvis Rossi. Em um artigo publicado logo após as eleições na vizinha nação, ele afirmou que “Maduro perdeu para a abstenção” e “teve 1,7 milhão de votos a menos que em 2013”. Ora, esquece-se o nosso veterano jornalista que esses 1,7 milhão a menos (ou seja, pouco mais de 6 milhões de votos obtidos em 2018) não impediram que Maduro conquistasse o triplo de votos do segundo colocado, seu principal opositor, Henri Falcón. E que Maduro obteve um percentual entre os cidadãos aptos a votar (32% de 20 milhões) maior do que os de Trump (27%), Piñera (26%), Santos (24%) e Maurício Macri, em 2015 na Argentina (27%).

Maduro obteve 68% dos votos, mais do que todos esses presidentes quando foram eleitos. Além disso, essa porcentagem entrou para a história como a maior votação que recebeu um presidente já eleito na Venezuela. Antes disso, Hugo Chávez havia recebido 63% dos votos nas eleições de 2006. No período anterior à Revolução Bolivariana, ou seja, durante a IV República, em que os partidos da oligarquia se revezavam no governo sob o pacto de “punto fijo”, a maior vitória havia sido de Jaime Lusinchi, com 56,7% dos votos válidos, em 1983.

A vitória de Maduro na Venezuela, ao contrário do que a oposição e a grande imprensa querem passar, reafirma sua popularidade e seu grande prestígio entre as massas, mesmo em uma situação adversa de crise política e econômica. Em todos os seus comícios eleitorais, as ruas das cidades em que passava lotavam. No último comício antes da eleição, mais de um milhão de caraquenhos se aglomeraram na Avenida Bolívar e suas proximidades para apoiar o presidente obreiro.

A “comunidade internacional” pode ter desconhecido o resultado da manifestação democrática do povo venezuelano. Mas qual a sua credibilidade, se ela é formada por países satélites dos EUA, que ficam muito atrás da Venezuela quando o assunto é democracia de verdade, proteção dos interesses da maioria e soberania nacional? Por outro lado, países retratados quase como vilões da política internacional, como Cuba, Rússia, China, Irã, Síria e muitos outros, reconheceram as eleições e prestaram seu apoio para que o governo bolivariano consiga se recuperar da crise induzida num futuro próximo.

Mas, nada de novo. Sempre quando os interesses imperiais prosperam pelo mundo, seus porta-vozes proclamam a vitória da democracia, da liberdade, dos direitos humanos e da paz. Quando, no entanto, esses interesses são derrotados pelos interesses dos povos, seu vexame é transformado em fraude, ditadura, trapaça. A história do século XX é rica nesses episódios. O século XXI, especialmente neste pequeno país com as maiores reservas de petróleo do planeta, não é diferente.

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