A morte da princesa Carmem

Postado em 16/07/2018 9:28 - Atualizado em: 16/07/2018 9:28
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KAMILLA OLIVEIRA
RUTEH RIBEIRO

Não consigo abrir os olhos. Não consigo me mexer. O meu corpo treme e se retrai. Não consigo respirar direito.

A noite está gélida e silenciosa, como se soubesse o que aconteceu e aguarda algum sinal que eu possa dar, dizendo “está tudo bem. Não tenho mais medo”.

Estou sentada ao lado dele e sinto o líquido quente sob minhas pernas. Está me invadindo, com seu odor forte e cor escarlate. É o seu sangue. O sangue daquele que prometeu me amar. O sangue daquele que prometeu cuidar de mim. É o sangue dele. O sangue do Otávio. Ele está morto.

Tomo coragem para poder ver e abro os olhos. A cena é trágica: o seu corpo, cheio de buracos – buracos profundos e largos – está sobre uma poça de sangue. Os olhos arregalados, estampando o horror da morte. A boca, de finos lábios, está torta, mostrando os dentes como se estivesse com raiva. O seu rosto, cansado e triste, não possui mais luz; está frio, pálido e seco. Ele está morto.

Ainda consigo sentir sua respiração ofegante; ouvir seus gritos abafados e ver o medo em seus olhos. Ele estava com medo. Medo por si, pelo o que viria a acontecer.

Nos conhecemos no último ano do colegial, em uma festa na casa de uma amiga que tínhamos em comum. Eu, tímida e assustada, estava sentada no canto da sala, ao lado da cozinha, quando ele apareceu. Era lindo, com um sorriso largo e encantador. Tinha os cabelos castanhos, um pouco bagunçados, e os mais belos olhos verdes que já vi. Era um pouco mais alto que os demais, por isso chamava certa atenção. O vi de longe e, como se o chamasse, sentou-se ao meu lado, me chamando de “princesa”, com um riso de canto. Horrível! Conversamos, conversamos muito naquela noite. Ao fim da festa, trocamos os números e continuamos conversando por mensagens. Duas semanas depois estávamos namorando. Foi muito rápido, mas nos amávamos muito. Eu o amava muito.

Ficamos bem até o quinto mês de namoro, quando ele me deu o primeiro tapa. Foi uma discussão boba, por um motivo bobo. Lembro que nesse dia eu estava na minha aula de ballet, que fazia no teatro. O Otávio ligou diversas vezes, mas não atendi. À tarde, como sempre ele foi me buscar, e foi a ocasião em que ele me viu conversando com um colega da classe de dança. Me deu o tapa ali mesmo, na frente do teatro, diante de todos. Não tive reação. Apenas senti minha bochecha queimar por dentro. Ele saiu com o carro, me deixando ali, humilhada na frente de todos. Cabisbaixa e envergonhada, caminhei até minha casa. Chorei muito.

No dia seguinte, recebi um belo buquê de flores com um cartão escrito “foi mal. Fiquei com ciúmes e perdi a cabeça. Te amo!”. É claro que perdoei.

Quando completamos sete meses de namoro, viajamos para uma praia. Na areia, deitada de bruços, com o Otávio ao meu lado, ouvi um “psiu!” de um cara qualquer. O Otávio não gostou, me puxou pelo braço e mandou eu me cobrir – era verão, estávamos na praia e, aparentemente, meu maiô não era uma roupa adequada para a ocasião. Voltamos para o quarto do hotel, onde ele extravasou sua raiva com tapas e chutes contra mim. Para minha família e amigos, meu olho roxo e hematomas foram resultados de um assalto violento.

Ainda naquela noite ouvi as piores palavras que uma mulher poderia escutar. Na manhã seguinte, acordei com ele sobre mim, nu. Percebi o que estava acontecendo, mas não disse nada, por medo. Depois ele só levantou para tomar um banho e comer alguma coisa, me deixando ali na cama, só e vazia. Chorei naquela manhã.

Noivamos no aniversário de um ano de namoro, quando também resolvemos morar juntos. Estávamos felizes e ele repetia sem parar o quanto me amava. Minha família também estava feliz, afinal de contas, ele era um “ótimo partido”, como dizia minha vó. Eu concordava, mesmo reconhecendo que o Otávio não era perfeito como alguns imaginavam. No entanto, ainda o amava. O amava muito.

Depois de três meses de noivado, descobri que estava grávida. No dia em que contaria, ele me bateu porque eu tinha saído com um grupo de amigos para comemorar o sucesso da minha apresentação de ballet, na qual ele não compareceu.

Falei da gravidez depois de uma semana. Primeiro o Otávio ficou preocupado, depois bravo. Disse que não queria um filho, aquele não era o momento, tinha outras coisas para fazer. Segundo ele, “um filho agora apenas iria atrapalhar nossas vidas”. Fiquei triste, chorei e não contei para ninguém. No quinto mês de gestação, irado, dizendo que o filho não era dele, o Otávio me deu onze chutes na barriga. Onze chutes na barriga. Eu gritava para ele parar, chorando, assustada, enquanto ele dizia não aceitar o filho de outro. Nunca existiu outro. Eu o amava muito.

Desesperada, fui ao médico, acompanhada da minha mãe. Tive um aborto. Chorei, dizendo que havia caído da escada da casa de um amigo. A escada era grande, muito grande. Acreditaram em mim, o médico e minha mãe. Ao fim da consulta, o médico, com a mão espalmada nas minhas costas, disse que eu poderia tentar novamente depois, ainda era jovem; minha mãe me abraçou forte, com uma expressão triste no rosto. Depois foi embora dizendo precisar cuidar do meu pai doente.

Nunca denunciei. Nunca contei a ninguém. Nada. Apenas sorria e dizia estar tudo bem. As marcas eram decorrentes de quedas e batidas. Era mais fácil de acreditar. Chorava todas as noites, mas ninguém via, ninguém ouvia. Durante o dia, estampava um sorriso e passeava com o Otávio. Ele dizia me amar. E eu o amava muito.

Ele me humilhava sempre que podia, com palavras baixas e ofensivas, na frente de seus amigos mesmo. Todos riam. Ele me batia quando estava com raiva, frustrado. Ameaçava me deixar, falando que ninguém me amaria como ele. E eu o amava muito.

Me afastei dos amigos que tinha. Saí do grupo de ballet. Passei a ficar mais tempo com o Otávio, imaginado que isso resolveria nossos problemas, nossas brigas. Devo dizer que não resolveu. Ele saía à noite, discutia comigo por qualquer motivo, vasculhava meu celular, procurando alguma coisa para poder brigar comigo, me dar mais um tapa. Depois de tudo, pedia perdão e eu o perdoava. Ele dizia me amar. E eu o amava muito.

De repente, algo aconteceu e tudo mudou para mim. Estávamos a uma semana do nosso casamento, ambos felizes e ansiosos. Confesso que não brigávamos há um tempo e isso era muito bom. Ele estava calmo, sorrindo, organizando os detalhes para o nosso “grande dia”. Eu estava me sentindo muito feliz, como se esperasse isso por toda minha vida e imaginando que, finalmente, poderíamos resolver nossos problemas. Não sei se o casamento resolveria; não temos mais como saber.

Ficamos bem até dois dias antes do casamento, quando tudo aconteceu. Ainda lembro de cada detalhe, cada cor, cada som… O Otávio me destruiu naquele dia.

Tínhamos saído para jantar. Na ocasião, encontrei aquele colega da turma de dança. Saí da mesa onde estava com o Otávio e fui cumprimenta-lo, conversar um pouco com ele. Quando me sentei novamente, o Otávio já não era mais o mesmo. Estava com uma expressão séria no rosto. Pediu a conta e não disse mais nada. Ficou em completo silêncio. Por medo, assustada com aquela nova feição dele, emudeci, fiquei quieta, encolhida dentro de mim. O acompanhei até o carro e fomos para casa, em silêncio. Ele cada vez mais com a expressão séria, brava.

Assim que entramos em casa, ele me deu um soco. Caí tonta no chão. Depois disso foram tapas, chutes e mais socos. Eu não entendia o que estava acontecendo e ele só gritava. Gritava mandando eu parar de chorar, me xingando, dizendo que eu o traí e que, definitivamente, aquele filho não era dele.

Eu estava inerte no chão. Tonta, sem forças, assustada e com raiva. Raiva de mim, raiva dele. Medo dele. Depois de tudo, achei que ele tinha acabado, mas não. Estava enganada. Ainda no chão, extremamente dolorida e machucada, ele veio sobre mim. Rasgou minhas roupas e me estupro ali mesmo, no chão da sala, sobre o tapete de veludo. Não tive reação.

Quando terminou, ajeitou-se e foi para nosso quarto, dizendo que iria dormir, estava cansado demais. Disse que conversaríamos melhor na manhã seguinte.

Sei que não haverá manhã seguinte, pois estamos aqui, eu e ele, morto, sobre o tapete de veludo. Liguei para a polícia contando tudo o que aconteceu. Cada detalhe.

Consigo ouvir as sirenes ao longe, se aproximando a cada instante. Enquanto aguardo a polícia, me mantenho ao lado do Otávio, encarando cada buraco em seu peito. Cada maldito buraco em seu peito. Ainda seguro a faca, que brilha nas minhas mãos.

O medo que eu tinha transformou-se em raiva, ódio. E o matei por isso. Sim, eu o matei. A morte não é minha. A morte é dele, do Otávio. Ele está morto.

Após a primeira facada, no meio de seu tórax, senti a euforia e a raiva tomarem conta de mim. As outras dezenas foram consequência.

Não estou arrependida, pelo contrário, estou satisfeita e feliz. Feliz e liberta. Liberta de seus tapas, socos, palavras e ataques. E agora estou bem, e quero que a noite saiba disso. Estou bem, já não sinto mais medo.

Eu o amei, mas ele nunca me amou verdadeiramente. E aqui estamos nós.

A sirene está alta e já posso ver as luzes piscando sem parar em frente à casa. O portão é aberto, violentamente, e ouço várias vozes, algumas chamando meu nome. Largo a faca sobre o tapete de veludo e ergo meus braços. Serei presa, julgada e condenada. No fim de tudo cometi um crime. Eu cometi um crime. O Otávio foi minha vítima.

DISQUE 180

CENTRAL DE ATENDIMENTO À MULHER

DENUNCIE – VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER É CRIME

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