Por que crítica feita ao Brasil não vale também para a China?

Toras de pau-rosa derrubadas ilegalmente em Madagascar. Foto: Reprodução DW

Caros brasileiros,

Faz pouco mais de um ano, o governo brasileiro rejeitou uma ajuda de 20 milhões de dólares oferecida pelo G7 (grupo das sete maiores potências econômicas do mundo) para combater os incêndios na Amazônia. A oferta foi feita numa cúpula do G7.

O então ministro da Casa Civil mandou um recado nada simpático aos lideres dos países industrializados: “Agradecemos, mas talvez esses recursos sejam mais relevantes para reflorestar a Europa”, afirmou ao portal G1. “O Brasil é uma nação democrática, livre e nunca teve práticas colonialistas e imperialistas, como talvez seja o objetivo do presidente francês”, acrescentou.

O argumento colonialista já foi usado várias vezes pelo governo brasileiro para defender as queimadas e o desmatamento na Amazônia.

A necessidade de países em desenvolvimento de se dedicarem mais ao crescimento econômico para combater a pobreza foi reconhecida pelas Nações Unidas, que nos vários acordos para a proteção de clima deixaram claro que os países industrializados tinham que contribuir mais que os países emergentes e em desenvolvimento.

A China é um dos países que mais usou essa argumentação para justificar sua priorização do crescimento econômico nos últimos 30 anos. E Pequim continua nessa linha: o novo pacote de aceleração econômica de 477 bilhões de dólares, anunciado em outubro, prevê a construção de inúmeras estradas, pontes e linhas ferroviárias sem nenhuma restrição em favor da proteção do meio ambiente.

O problema é a dupla moral

Para evitar mal entendidos: não quero aqui justificar a destruição da Floresta Amazônica ou de qualquer outra floresta neste mundo. Mas quero chamar a atenção para a dupla moral que muitas vezes domina o debate. A crítica dirigida ao Brasil não é dirigida da mesma maneira à China.

A alta demanda da China por recursos naturais, por exemplo, aumenta a pressão sobre iniciativas como a moratória da soja no Brasil, um acordo envolvendo grandes exportadores de soja e a sociedade civil, que está em vigor desde 2006 e conseguiu reduzir em cerca de 80% o desmatamento de áreas na Amazônia para plantar o grão.

O crescimento econômico da China causa o tráfico ilegal da madeira pau-rosa. Segundo o escritório das Nações Unidas para o combate ao crime organizado (Undoc), a demanda por essa madeira tropical, que é usada na fabricação de móveis, está causando desmatamento nas florestas dos países asiáticos Tailândia, Laos, Vietnã, Cambodja e Myanmar e também em muitos países africanos.

Desmatamento na Europa

A própria Europa não era e não é um modelo de sustentabilidade. Segundo uma pesquisa da Universidade de Plymouth, publicada na revista Nature, nos últimos 6 mil anos, a área coberta por florestas no velho continente foi reduzida em mais da metade.

A briga entre economia e meio ambiente continua. Em 2007, o então presidente do Equador, Rafael Correa, desafiou a comunidade europeia. Ele prometeu que o país deixaria as reservas de petróleo embaixo da terra no Parque Nacional de Yasuní se os países industrializados compensassem o Equador pelas perdas do petróleo não vendido. A iniciativa pioneira fracassou.

Bolsonaro não desafiou os países industrializados com um projeto concreto. Ele decidiu ignorar a oferta do G7 e minimizar o aquecimento global. E partiu para o ataque. Mas de que adianta criticar o colonialismo dos europeus e ao mesmo tempo praticar um colonialismo brasileiro?

A União Europeia, por sua vez, poderia realmente cuidar melhor das suas próprias florestas, como Bolsonaro sugeriu. E ela também poderia ampliar suas críticas a outros países: além do Brasil, por exemplo ao Peru ou à Indonésia, onde nos últimos dez anos houve desmatamentos recordes também, segundo a iniciativa Global Forest Watch. E, claro, também à China.

Os presidentes Rafael Correa e Jair Bolsonaro fizeram as perguntas certas. Pena que deram as respostas erradas.


Astrid Prange de Oliveira foi para o Rio de Janeiro solteira. De lá, escreveu por oito anos para o diário taz, de Berlim, e outros jornais e rádios. Voltou à Alemanha com uma família carioca e, por isso, considera o Rio sua segunda casa. Hoje ela escreve sobre o Brasil e a América Latina para a Deutsche Welle. Siga a jornalista no Twitter @aposylt e no astridprange.de.

 

Fonte: Deutsche Welle (DW)

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