China e o Covid: ameaças e oportunidades

José Vicente Lessa*

A vida está voltando ao normal na China. Neste 25 de agosto fazem dez dias que nenhum caso novo de infecção pelo vírus é reportado. Em Pequim, lojas, shoppings e cinemas voltam a estar em plena atividade, reunindo o habitual “formigueiro” humano numa cidade com mais de 21 milhões de habitantes. Somente na remota Região Autônoma de Xinjiang-Uigur e em Guangdong, no sudeste, permanecem zonas classificadas de médio-risco ou de alto-risco. O Xinjiang oferece risco por suas dimensões. Em Guangdong o risco estaria no fato de a bacia do Rio das Pérolas ser a principal e tradicional rota de entrada do comércio internacional.

Enquanto o ocidente – e no Brasil não é diferente – amaldiçoa o tal “vírus chinês”, devemos também conhecer o evidente êxito que a China está demonstrando em seu combate. Antes, porém, alguns parâmetros devem ser vistos. Em primeiro lugar, vemos na disciplina de que o público chinês, em todas as suas etnias, revela-se capaz, o peso de um regime opressor. Esta visão é verdadeira até certo ponto. Há que observar-se igualmente um dado cultural. O povo chinês (assim como o japonês e o coreano) incorpora cuidados sanitários básicos desde sempre, ante qualquer surto banal de gripe ou resfriado, independente de regulação estatal. Restrições a viagens, uso de máscaras, distanciamento social e medidas de higiene ainda são observadas. Alguns desses cuidados devem ser ainda mais firmemente incorporados à rotina nacional. O uso de máscaras não é novidade nos grandes centros.

Em Segundo lugar, uma população de 1,4 bilhão não seria facilmente controlável. O sistema de “créditos” sociais, anunciado em 2014 mas que, devido a sua complexidade, ainda não está plenamente implementado, alcançaria sobretudo as classes médias urbanas (a população rural e o pobre urbano, em sua vida simples, não obteriam vantagem significativa de tais créditos).  Corporações privadas, como as financeiras operando on-line, usam o sistema, sem articulação com outras redes, para calcular riscos e a confiabilidade de seus usuários. De certo modo, o sistema é também setorialmente aplicado em alguns países para beneficiar motoristas de aplicativo avaliados por passageiros ou, como no Reino Unido, para denegar ingresso aos estádios a torcedores violentos. Deste modo, o combate à pandemia muito se deve, nestes dias, mais ao hábito que a eventuais regras draconianas emanadas de um governo despótico.

Comparar esse quadro com o brasileiro parece exercício vão. Falta-nos o saudável hábito social de proteção mútua, dado por uma consciência de pertencimento a uma coletividade. Falta-nos, sobretudo, esse código de conduta que tem atravessado dez mil gerações, desde os tempos em que Confúcio ensinava as virtudes próprias de um imperador e a correção nas relações sociais. O Brasil, com população sete vezes menor que a China, longe está de formar homogeneidade de costumes. O sistema federativo que, se por um lado racionaliza a administração do território, por outro favorece oligarquias políticas locais, levadas a caprichos ideológicos e mesmo ao animus abutendi da população e da própria federação. Por oposição, o sistema político chinês evita a formação de grupos de interesse locais pela rotatividade de seus quadros.

A China tem sido capaz de enfrentar – ou mesmo de provocar – grandes crises e delas sair mais forte. Não é por acaso que a expressão em mandarim para “crise” (weiji) é formada por dois caracteres 危机 que significam “perigo” e “oportunidade”.

*Diplomata de carreira, graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia; Ingresso na carreira diplomática em 1978;nonde foi Chefe da Divisão de Atos Internacionais do Itamaraty  por oito anos (1998-2006); Postos no exterior: Holanda, Alemanha, Suíça, Costa Rica e Namíbia; Segundo-Secretário em Pequim (1992-1995); Cônsul-Geral em Guangzhou, por seis anos (2013-2018), com jurisdição sobre as províncias de Cantão, Fujian, Guizhou, Hunam, Hainan, Yunnan e Região Autônoma de Guanxi