Líbano depende da ajuda internacional para nova reconstrução

A série de duas fortes explosões registradas na terça-feira (4) na região portuária de Beirute, capital do Líbano, recoloca o país árabe de volta a um cenário já visto há 30 anos, quando do fim da guerra civil que assolou a nação por 15 anos, segundo um analista ouvido pela Sputnik Brasil.

De acordo com o professor e vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (FAMBRAS), Ali Houssein El-Zoghbi, a tragédia que deixou mais de 100 mortos e aproximadamente 4 mil feridos na capital libanesa demanda um trabalho semelhante ao feito em 1990.

“Entendo que é possível sim fazer um plano estratégico para o Líbano, similar a planos que já foram feitos pós-guerra e isso de uma maneira responsável, para que o povo libanês possa receber isso de maneira a não ter barganhas, que seja um projeto de sustentação definitiva para o Líbano e que se coloque isso na mão de pessoas isentas, responsáveis e isso o Líbano tem muita gente que pode assumir talvez essa responsabilidade”, disse à Sputnik Brasil.

Descendente de libaneses, El-Zoghbi relembrou que o Líbano vivia um momento muito grave antes mesmo da tragédia, com “uma crise econômica sem precedentes na história, mesmo durante a guerra civil que aconteceu há algum tempo atrás”.

“Essa crise econômica estava provocando uma situação de penúria, de miséria, uma situação bastante drástica, as pessoas com dificuldade de conseguir alimento, emprego, as questões de infraestrutura libanesa que já era bastante precária acabou se agravando, e somando-se a isso nós tivemos a ocorrência impressionante, porque é uma imagem bastante forte, e além disso nós temos centenas de pessoas, milhares de pessoas feridas e ainda estamos contabilizando os mortos”, prosseguiu ele.

O vice-presidente da FAMBRAS reforçou que as explosões em Beirute tiveram um significado singular à comunidade libanesa no Brasil, uma vez que ele estima haver 12 milhões de descendentes libaneses em solo brasileiro, ante os cerca de 6 milhões de habitantes do Líbano – dois grandes fluxos migratórios de libaneses foram registrados no começo e em meados do século XX.

Homem ferido recebe assistência no local de uma explosão na região portuária de Beirute
© REUTERS / MOHAMED AZAKIR
Assistência à vítima da explosão em Beirute

No presente, o Líbano hoje conta não só com libaneses, mas também com parcelas importantes de refugiados sírios, que fogem da guerra civil que já dura nove anos, e de refugiados palestinos, que começaram a povoar o país no final dos anos 1940, pelos reflexos das disputas entre israelenses e árabes – o que veio a desembocar na guerra civil libanesa, em 1975.

Para El-Zoghbi, como em eventos trágicos na região em um passado não muito distante, é preciso a participação da comunidade internacional para resolver os aspectos imediatos.

“A infraestrutura libanesa, não é de hoje, é bastante precária, as questões de energia, de água, de saneamento, então são eu diria caminhos que podem ser traçados aí nesse momento a médio prazo, porque a curto prazo realmente é suprir a população com alimentos, com insumos hospitalares, com especialistas na área médica para poder fazer frente a esse momento tão difícil”, avaliou.

A suspeita principal acerca das explosões é a presença da substância nitrato de amônio, altamente inflamável, em um depósito na região portuária de Beirute. Os primeiros indícios já indicam que pode ter existido negligência, e os donos do local já foram presos a pedido das autoridades libanesas. O professor ouvido pela Sputnik Brasil apoia a rápida identificação dos responsáveis.

“A gente lamenta muito o ocorrido e sabemos sim que não é possível que uma situação como essa não tenha responsáveis. Acho que, acima de tudo, os critérios de lidar com esse tipo de componente químico foram totalmente negligenciados e isso é fato, não há como se discutir isso. Obviamente que deve haver um inquérito, uma apuração. O que a gente imagina é que esse inquérito possa coibir situações similares que possam estar acontecendo no Líbano e em outros locais, e ao mesmo tempo impedir que situações como essa aconteçam no futuro”, concluiu ele.

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